Poesia de domingo, 11 | 2015

faz hoje oito dias passei a tarde no quarto
arrumando sentimentos (telefonemas
demorados caixotes de canto cheiíssimos)

o que trouxe a chave de casa as portas
do primeiro beijo. no outono caem as
folhas da estante e os livros ficam nus

solto uma fotografia entre o armário e
a parede investindo na surpresa de te
encontrar por acaso na próxima arrumação
do quarto. traço círculos a vermelho

no calendário de parede (sem pressa
de consultar os riscos dentro da mão)
os gatos sempre se deitam sobre o papel
mais necessário

João Luís Barreto Guimarães

Poesia de domingo, 11 | 2015

Lua Minguante

 

Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem na húmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.

Verta Éolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Erga Netuno, em cheias mãos, ao alto
As ondas estoirando

Tudo lhe é nada, e o próprio pecureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a árvores onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,

Não sabe que os seus passos vão cobrindo
O que podia ser,
Se a vida fosse sempre a vida, a glória
De uma beleza eterna.
Imortal saudade.

Ricardo Reis, poema 33 – pág.73

Lua Minguante

Poema de domingo, 09 | 2015

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)

Sylvia Plath

Poema de domingo, 09 | 2015

Poema de Domingo, 07 | 2015

 

Louvação da Tarde

Mário de Andrade

 

Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quasei móvel: é gostoso
Com o papagaio louro do ventinho
Pousado em minha mão, pleas ilhotas
Dos teus perfumes me perder, rolando
Sobre a desabitada rodovia.
Só tu me desagregas, tarde vasta,
da minha trabalheira. Sigo livre,
Deslembrado da vida, lentamente.
Com o pé esquecido do acelerador.
E a maquininha me conduz, perdido
De mim, por entre cafezais coroados,
Enquanto meu olhar maquinalmente
Traduz a língua norteamericana
Dos rastos dos penumáticos na poeira.
O doce respirar do forde se une
Aos gritos ponteagudos das graúnas
Aplacando meu sangue e meu ofego.
São murmúrios severos, repetidos,
Que me organizam todo o ser vibrante
Num método sádio. Só no exílio
De teu silêncio, os ritmos maquinares
Sinto, metodizando, regulando
O meu corpo. E talvez meu pensamento…

Tarde, recreio do meu dia, é certo
Que só no teu parar se normaliza
A onda de todos os transbordamentos
Da minha vida inquieta e desregada.

(…)

Poema de Domingo, 07 | 2015

Poesia de Domingo, 06 | 2015

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra “amigo”.
“Amigo” é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
“Amigo” (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
“Amigo” é o contrário de inimigo!
“Amigo” é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
“Amigo” é a solidão derrotada!
“Amigo” é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
“Amigo” vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill,

Poesia de Domingo, 06 | 2015

Iniciação…

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos

Ricardo Reis

lilya-corneli 2 Imagem. Lylia Conelli

Eu estava de volta a São Paulo… mas era como se fosse a primeira vez nessa cidade. Não reconhecia os lugares. Andava sem destino ou mapas e na memória pouco-ou-nada havia se preservado de minha primeira passagem anterior por aqui, logo era impossível eu me perder…

Fui parar na Lapa – paulistana – com seu punhado de ruas estranhas, intercaladas por vielas sombrias… esbarrei, num primeiro momento, na fisionomia perturbadora da Igreja Nossa Senhora da Lapa, cercada por grades, acontecendo entre esquinas… um breve olhar e nada mais. Segui em frente…

Duas ruas para baixo, outras tantas para o lado… e outra Igreja se precipitou aos meus olhos. Respirei fundo como se estivesse sendo perseguida por algo ou alguém…

O lugar em si era uma confusão de casas, ruas, banca de jornal, um pedaço de praça, o comércio local e esse cenário  incomum: uma porta semi aberta, livros espalhados por simpáticas prateleiras, algumas mesinhas, cadeiras e ao fundo um café escondido no meio dos livros.

Ali dentro, um jazz antigo parecia dizer a idade do lugar… invadi o espaço com cuidado, sentindo na ponta dos dedos a textura dos livros e nas narinas os muitos aromas agradáveis do assoalho ao forro de madeira… até que, me deparei com a fisionomia dessa moça, com seu estilo ultrapassado. Outros tempos. Outros dias.

Ela exibiu um belo sorriso de boas vindas, como se há tempos não recebesse visitas… me olhou atentamente durante alguns segundos e então, como se me soubesse, disse em voz alta: “eu tenho o que você procura” afundando-se entre prateleiras. Desapareceu por alguns segundos, voltando em seguida…

Esperei por um livro de Eliot, Álvaro de Campos ou Emily Dickinson… mas o que veio para as minhas mãos, foi um livro estranho: “guia essencial da bruxa solitária de Scott Cunningham“. 

Com o livro em mãos, pensei imediatamente em recusá-lo, mas não o fiz por preguiça ou cansaço (decerto, os dois ao mesmo tempo) por imaginar tudo que ela diria para me convencer em aceitá-lo. Logo, preferi o silêncio.

Ainda observando o livro com sua capa verde… ousei me aventurar por outros caminhos: “você tem livros de poesias?”.  Ela me entregou um sorriso irônico e como se esperasse pela minha minha atitude, respondeu de maneira firme. Eu diria até um pouco rude tenho, mas nada que irá lhe interessar. Eu tenho um livro de Ricardo Reis em algum lugar, mas você prefere o outro: Campos, não é mesmo?”

Incomodada com a resposta, fechei os olhos e respirei fundo… mas nada mudou nos minutos seguintes “é o primeiro passo: questionar a realidade das coisas porque é mais fácil que aceitá-las, não é mesmo?”.

Ela me ofereceu um café, que eu aceitei como se não tivesse escolha e fiquei lá, andando atrás dela por todo aquele cenário entre prateleiras, enquanto ouvia sua fala incessante, que parecia revirar minhas lembranças, embaralhando-as para em seguida distribuí-las sobre a mesa que eu ocupei durante o resto da tarde…

Enquanto ela falava da lua cheia e seus rituais… recordei minhas andanças por aí e, finalmente me lembrei do presente que me foi dado aos sete anos… e levei, imediatamente a mão até o meu pescoço, sentindo falta do pentagrama feito com gravetos, pelo mio nono.

Por um segundo, fixei meu olhar junto a figura antiga daquela mulher… na tentativa de ter uma certeza (que não veio) de que tudo não passava de um sonho e só era preciso despertar.

Iniciação
Ricardo Reis

Não dormes sob os ciprestes
Pois não há sono no mundo
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser
Vais na noite só recorte,
Igual a ti em querer.
Mas na Estalagem do assombro
tiram-te os anjos a capa
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que tapa
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu
não tens vestes, não tens nada
Tem só teu corpo, que és tu
Por fim, na funda caverna
Os Deuses despem-te mais
Teu corpo cessa, alma externa
Mas vê que são teus iguais
A sombra de tuas vestes
Ficou entre nós na sorte
Não estás morto entre ciprestes
Neófito, não há morte

Iniciação…

Poesia de Domingo, 05 | 2015

As mãos

Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.

Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.

Escrever é ler,
ler é escrever – eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito – eu vejo-o: nítido –
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.

E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.

Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.

Bernardo Pinto de Almeida

Poesia de Domingo, 05 | 2015

Poema de domingo, 04 | 2015

Não sei quantas almas tenho
Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Poema de domingo, 04 | 2015

Poema de domingo, 3 | 2015

ISTO É O MEU CORPO

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.

José Tolentino Mendonça,

Poema de domingo, 3 | 2015

Poema de domingo, 02 | 2015

 

map1-c917Manuel Antonio Pina – 1943 – 2012

 

Tanto Silêncio

Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz “eu”;
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras “o teu coração”)?

Manuel António Pina

Poema de domingo, 02 | 2015

Poema de Domingo, 01 | 2015

É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada

no mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta

e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito

e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal

se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
mas novamente dói a dor no peito

e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro

onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida

a que chamamos coisa e porém amamos
sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale

e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos

para além do verso e do corpo gasto
sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos

esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno
António Carlos Cortez

Poema de Domingo, 01 | 2015