A Lua de Fevereiro

 

lua de fevereiro

 

…é a “lua casta” – a lua da purificação do corpo, da mente e também da alma. É a água corrente. A trilha de terra acontecendo entre pedras. O passo mais lento. A calma e a tranquilidade. Os olhos fechados, a emoção falando alto. É o carinho de mãos, o afago feito com cuidado.

Sua cor é o branco e sua sensação a continuidade. Sua direção: o norte. Seu sentido: a intuição. Seu som é o das batidas do coração.

A meditação é feita junto a aurora… junto aos primeiros raios de sol.

Seu símbolo maior é a águia em seu vôo manso, brando por sobre as coisas humanas, demasiadamente superficiais.

Sua condição é atemporal… tudo é movimento para fora, sentido horário. As seis horas da manhã… quando a prece sem palavras é feita para a Deusa Tríplice.

É a dança completa, dos dias, das horas, do corpo, da arte!
É o começo e também o meio e o fim!

 

Volte a lua a esse verso que tua mão
Escreve, e volta, ao primeiro clarão
Azul, a teu jardim. A mesma lua
Desse jardim irá buscar-te em vão.

E sejam sob a lua dessas ternas
Tardes teu exemplo humilde as cisternas,
Em cujo espelho d´água se repetem
Umas poucas imagens, mas eternas.

Que a lua do persa e os incertos
Dourados dos crepúsculos desertos
Retornem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. Tu és os mortos.

Borges – pág. 45

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A Lua de Fevereiro

Quando é que nos afastamos de nós mesmos?

Deixa-me adormecer e não perguntes nada.
O mundo foi alheio e a vida foi comprida
nos seus desenganos de coisa perdida.

Alberto de Lacerda

 

 

Fiz uma pausa em meus dias no final de 2014… ano, cuja soma dos números, curiosamente é sete, esse número tão comum a minha realidade! Talvez por isso, a pausa tenha sido tão necessária. Dois mil e catorze foi um ano de muitos experimentos… tanto ao meu redor, quanto dentro de mim… não é fácil enfrentar-se, tampouco ao outro.  É cansativo, desgastante, mas totalmente necessário…é assim que se dá o tão desejado aprendizado.

A pausa foi até a semana anterior… quando voltei à realidade e, também à vida, precisamente no dia 26 de janeiro, data que se iguala em soma ao ano que temos para nós: 2015. Essas singularidades costumam nortear os meus movimentos. Os números, desde o meu nascimento, brincam comigo, e eu costumo me divertir com esses acontecimentos.

Nada é por acaso, sabemos…. as coisas (todas) acontecem, quase sempre, motivadas por nossas ações. O acaso é uma desculpa comumente usada por nós… que temos a estranha mania de não assumir os nossos atos. Agimos no impulso, motivados que somos, pelo universo ou qualquer outra justificativa banal, inventada na última hora, no último segundo… porque gostamos de dizer em alto e bom tom “tudo acontece independente à nossa vontade”.

Como não faço parte da turbamulta, evito frases prontas e desculpas toscas… preferindo meditar sobre meus passos, movimentos, resultados ou a falta deles. E foi justamente o que me fez passar os últimos dias em silêncio agudo, meditando junto ao branco do teto de meu quarto… observei a mim mesma e todas as coisas que resultaram num grande hecatombe. Fui tragada por esse vórtice e me vi diante da inevitável certeza: o acaso – definitivamente – não me serve.

Percebi, entre muitas coisas, que fiquei pelo caminho um sem fim de vezes. Não conclui certos movimentos, não investi tanto quanto podia em certos passos, abandonei certezas, abracei dúvidas e, no fim, fiquei com o pouco ou nada em mãos. E que diferença faz quando temos apenas o ponto de partida e também o meio do caminho… que nos revelará como sendo uma estrada longa, com um horizonte impossível de se alcançar? Na boca ficou um sabor amargo… que me questionar até mesmo as minhas preferências.

Eu sempre gostei de pautar minha existência de maneira a reconhecer os começos, os meios e principalmente os fins… porque a vida, pra mim, é isso e tudo deve, obrigatoriamente, me levar a  uma conclusão e a um obvio resultado… uma coisa depende – inevitavelmente – da outra… mas, ao rever os meus passos, ficou claro que fui – sempre – em frente, mas sem me levar comigo. Abandonei-me numa dessas esquinas que eu costumo visitar durante minhas caminhadas… e agora, sem fim, me vejo obrigada a dar meia volta para me encontrar, não por acaso, começo a percorrer o caminho que me levará ao meu encontro nesse dia primeiro de fevereiro. Dia da Deusa Brigith a quem acendo velas e incensos desde os meus sete anos, quando sua figura foi introduzida em minha realidade.

Quando é que nos afastamos de nós mesmos?

Poema de Domingo, 01 | 2015

É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada

no mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta

e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito

e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal

se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
mas novamente dói a dor no peito

e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro

onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida

a que chamamos coisa e porém amamos
sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale

e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos

para além do verso e do corpo gasto
sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos

esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno
António Carlos Cortez

Poema de Domingo, 01 | 2015