Poema de Domingo, 07 | 2015

 

Louvação da Tarde

Mário de Andrade

 

Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quasei móvel: é gostoso
Com o papagaio louro do ventinho
Pousado em minha mão, pleas ilhotas
Dos teus perfumes me perder, rolando
Sobre a desabitada rodovia.
Só tu me desagregas, tarde vasta,
da minha trabalheira. Sigo livre,
Deslembrado da vida, lentamente.
Com o pé esquecido do acelerador.
E a maquininha me conduz, perdido
De mim, por entre cafezais coroados,
Enquanto meu olhar maquinalmente
Traduz a língua norteamericana
Dos rastos dos penumáticos na poeira.
O doce respirar do forde se une
Aos gritos ponteagudos das graúnas
Aplacando meu sangue e meu ofego.
São murmúrios severos, repetidos,
Que me organizam todo o ser vibrante
Num método sádio. Só no exílio
De teu silêncio, os ritmos maquinares
Sinto, metodizando, regulando
O meu corpo. E talvez meu pensamento…

Tarde, recreio do meu dia, é certo
Que só no teu parar se normaliza
A onda de todos os transbordamentos
Da minha vida inquieta e desregada.

(…)

Poema de Domingo, 07 | 2015

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