Iniciação…

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos


Ricardo Reis

lilya-corneli 2 Imagem. Lylia Conelli

Eu estava de volta a São Paulo… mas era como se fosse a primeira vez nessa cidade. Não reconhecia os lugares. Andava sem destino ou mapas e na memória pouco-ou-nada havia se preservado de minha primeira passagem anterior por aqui, logo era impossível eu me perder…

Fui parar na Lapa – paulistana – com seu punhado de ruas estranhas, intercaladas por vielas sombrias… esbarrei, num primeiro momento, na fisionomia perturbadora da Igreja Nossa Senhora da Lapa, cercada por grades, acontecendo entre esquinas… um breve olhar e nada mais. Segui em frente…

Duas ruas para baixo, outras tantas para o lado… e outra Igreja se precipitou aos meus olhos. Respirei fundo como se estivesse sendo perseguida por algo ou alguém…

O lugar em si era uma confusão de casas, ruas, banca de jornal, um pedaço de praça, o comércio local e esse cenário  incomum: uma porta semi aberta, livros espalhados por simpáticas prateleiras, algumas mesinhas, cadeiras e ao fundo um café escondido no meio dos livros.

Ali dentro, um jazz antigo parecia dizer a idade do lugar… invadi o espaço com cuidado, sentindo na ponta dos dedos a textura dos livros e nas narinas os muitos aromas agradáveis do assoalho ao forro de madeira… até que, me deparei com a fisionomia dessa moça, com seu estilo ultrapassado. Outros tempos. Outros dias.

Ela exibiu um belo sorriso de boas vindas, como se há tempos não recebesse visitas… me olhou atentamente durante alguns segundos e então, como se me soubesse, disse em voz alta: “eu tenho o que você procura” afundando-se entre prateleiras. Desapareceu por alguns segundos, voltando em seguida…

Esperei por um livro de Eliot, Álvaro de Campos ou Emily Dickinson… mas o que veio para as minhas mãos, foi um livro estranho: “guia essencial da bruxa solitária de Scott Cunningham“. 

Com o livro em mãos, pensei imediatamente em recusá-lo, mas não o fiz por preguiça ou cansaço (decerto, os dois ao mesmo tempo) por imaginar tudo que ela diria para me convencer em aceitá-lo. Logo, preferi o silêncio.

Ainda observando o livro com sua capa verde… ousei me aventurar por outros caminhos: “você tem livros de poesias?”.  Ela me entregou um sorriso irônico e como se esperasse pela minha minha atitude, respondeu de maneira firme. Eu diria até um pouco rude tenho, mas nada que irá lhe interessar. Eu tenho um livro de Ricardo Reis em algum lugar, mas você prefere o outro: Campos, não é mesmo?”

Incomodada com a resposta, fechei os olhos e respirei fundo… mas nada mudou nos minutos seguintes “é o primeiro passo: questionar a realidade das coisas porque é mais fácil que aceitá-las, não é mesmo?”.

Ela me ofereceu um café, que eu aceitei como se não tivesse escolha e fiquei lá, andando atrás dela por todo aquele cenário entre prateleiras, enquanto ouvia sua fala incessante, que parecia revirar minhas lembranças, embaralhando-as para em seguida distribuí-las sobre a mesa que eu ocupei durante o resto da tarde…

Enquanto ela falava da lua cheia e seus rituais… recordei minhas andanças por aí e, finalmente me lembrei do presente que me foi dado aos sete anos… e levei, imediatamente a mão até o meu pescoço, sentindo falta do pentagrama feito com gravetos, pelo mio nono.

Por um segundo, fixei meu olhar junto a figura antiga daquela mulher… na tentativa de ter uma certeza (que não veio) de que tudo não passava de um sonho e só era preciso despertar.

Iniciação
Ricardo Reis

Não dormes sob os ciprestes
Pois não há sono no mundo
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser
Vais na noite só recorte,
Igual a ti em querer.
Mas na Estalagem do assombro
tiram-te os anjos a capa
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que tapa
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu
não tens vestes, não tens nada
Tem só teu corpo, que és tu
Por fim, na funda caverna
Os Deuses despem-te mais
Teu corpo cessa, alma externa
Mas vê que são teus iguais
A sombra de tuas vestes
Ficou entre nós na sorte
Não estás morto entre ciprestes
Neófito, não há morte

Iniciação…

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