Poema de domingo, 09 | 2015

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)

Sylvia Plath

Anúncios
Poema de domingo, 09 | 2015

Equinócio

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Fernando Pessoa(5-11-1932)

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta 

time
Começa o dia e eu penso em cores.
O sol e seus coloridos raios tocam minha janela e eu me perco em sensações diversas.

Fecho os meus olhos e vou ouvindo essa canção interior… as lembranças se espalham pela pele e eu recordo os meus ancestrais. Sinto o calor da saudade na extensão de todo o meu corpo. Sinto-os em mim, onde sempre estão. Mas em alguns dias, como hoje, essa presença é muito mais forte…

Ontem foi dia dos pais… e eu recordei as mãos do meu homem junto as minhas. Seu sorriso bobo e seu abraço de urso. Recordei a mim mesma, ainda menina, junto a ele… gostava imenso de esfregar meu rosto no dele, sentindo os fios de seu cavanhaque riscar a minha pele, como se estivesse a compor meu traço, refazendo o meu desenho de menina…

Hoje teremos eclipe do sol, super lua e também o equinócio. É dia de tocar o sino três vezes, nas horas que valem: meio dia, três (quinze), seis e nove horas. E quando a meia noite chegar, após o toque do sino, fecharei meus olhos e celebrarei a dança da vida, da arte, da natureza que sou e da qual faço parte.

Março é esse mês dedicado ao Deus da Guerra, Marte, na mitoliga romana e Ares, na mitologia Grega.

Para os romanos era um “marco”… quando o novo Ano Zodiacal tinha inicio, a data — algo próximo ao dia 21 de março — se mantêm até hoje…

A nona costumava dizer nesse dia: “para esse dia celebrar, um punhado de ervas encontrar: mangericão, canela, hortelã e alecrim. E no final do dia um chá preparar, depois de três vezes o sino tocar” — era seu feitiço, sua celebração. Sua pausa tão necessária… eu repito muito dessas coisas que aprendi porque dão sentido a minha existência, porque é como o ar que eu preciso. São meus rituais sagrados… é o meu encontro comigo mesma porque a vida sempre nos leva para longe — é a nossa guerra — para que a gente aprenda a voltar. E uma vez estando de volta a casa, podemos meditar e reconhecer os caminhos percorridos e então somar  os erros e também os acertos, para que a gente finalmente compreenda a nossa marcha.

Ser melhor que ontem não deve ser uma necessidade, apenas uma possibilidade, dentre tantas outras que temos.

Que a nova estação — outono aqui e primavera por lá — nos traga mistérios, maravilhas e inspirações muitas.
Blessed be.

Equinócio

Poema de Domingo, 07 | 2015

 

Louvação da Tarde

Mário de Andrade

 

Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quasei móvel: é gostoso
Com o papagaio louro do ventinho
Pousado em minha mão, pleas ilhotas
Dos teus perfumes me perder, rolando
Sobre a desabitada rodovia.
Só tu me desagregas, tarde vasta,
da minha trabalheira. Sigo livre,
Deslembrado da vida, lentamente.
Com o pé esquecido do acelerador.
E a maquininha me conduz, perdido
De mim, por entre cafezais coroados,
Enquanto meu olhar maquinalmente
Traduz a língua norteamericana
Dos rastos dos penumáticos na poeira.
O doce respirar do forde se une
Aos gritos ponteagudos das graúnas
Aplacando meu sangue e meu ofego.
São murmúrios severos, repetidos,
Que me organizam todo o ser vibrante
Num método sádio. Só no exílio
De teu silêncio, os ritmos maquinares
Sinto, metodizando, regulando
O meu corpo. E talvez meu pensamento…

Tarde, recreio do meu dia, é certo
Que só no teu parar se normaliza
A onda de todos os transbordamentos
Da minha vida inquieta e desregada.

(…)

Poema de Domingo, 07 | 2015

Poesia de Domingo, 06 | 2015

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra “amigo”.
“Amigo” é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
“Amigo” (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
“Amigo” é o contrário de inimigo!
“Amigo” é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
“Amigo” é a solidão derrotada!
“Amigo” é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
“Amigo” vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill,

Poesia de Domingo, 06 | 2015

Iniciação…

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos

Ricardo Reis

lilya-corneli 2 Imagem. Lylia Conelli

Eu estava de volta a São Paulo… mas era como se fosse a primeira vez nessa cidade. Não reconhecia os lugares. Andava sem destino ou mapas e na memória pouco-ou-nada havia se preservado de minha primeira passagem anterior por aqui, logo era impossível eu me perder…

Fui parar na Lapa – paulistana – com seu punhado de ruas estranhas, intercaladas por vielas sombrias… esbarrei, num primeiro momento, na fisionomia perturbadora da Igreja Nossa Senhora da Lapa, cercada por grades, acontecendo entre esquinas… um breve olhar e nada mais. Segui em frente…

Duas ruas para baixo, outras tantas para o lado… e outra Igreja se precipitou aos meus olhos. Respirei fundo como se estivesse sendo perseguida por algo ou alguém…

O lugar em si era uma confusão de casas, ruas, banca de jornal, um pedaço de praça, o comércio local e esse cenário  incomum: uma porta semi aberta, livros espalhados por simpáticas prateleiras, algumas mesinhas, cadeiras e ao fundo um café escondido no meio dos livros.

Ali dentro, um jazz antigo parecia dizer a idade do lugar… invadi o espaço com cuidado, sentindo na ponta dos dedos a textura dos livros e nas narinas os muitos aromas agradáveis do assoalho ao forro de madeira… até que, me deparei com a fisionomia dessa moça, com seu estilo ultrapassado. Outros tempos. Outros dias.

Ela exibiu um belo sorriso de boas vindas, como se há tempos não recebesse visitas… me olhou atentamente durante alguns segundos e então, como se me soubesse, disse em voz alta: “eu tenho o que você procura” afundando-se entre prateleiras. Desapareceu por alguns segundos, voltando em seguida…

Esperei por um livro de Eliot, Álvaro de Campos ou Emily Dickinson… mas o que veio para as minhas mãos, foi um livro estranho: “guia essencial da bruxa solitária de Scott Cunningham“. 

Com o livro em mãos, pensei imediatamente em recusá-lo, mas não o fiz por preguiça ou cansaço (decerto, os dois ao mesmo tempo) por imaginar tudo que ela diria para me convencer em aceitá-lo. Logo, preferi o silêncio.

Ainda observando o livro com sua capa verde… ousei me aventurar por outros caminhos: “você tem livros de poesias?”.  Ela me entregou um sorriso irônico e como se esperasse pela minha minha atitude, respondeu de maneira firme. Eu diria até um pouco rude tenho, mas nada que irá lhe interessar. Eu tenho um livro de Ricardo Reis em algum lugar, mas você prefere o outro: Campos, não é mesmo?”

Incomodada com a resposta, fechei os olhos e respirei fundo… mas nada mudou nos minutos seguintes “é o primeiro passo: questionar a realidade das coisas porque é mais fácil que aceitá-las, não é mesmo?”.

Ela me ofereceu um café, que eu aceitei como se não tivesse escolha e fiquei lá, andando atrás dela por todo aquele cenário entre prateleiras, enquanto ouvia sua fala incessante, que parecia revirar minhas lembranças, embaralhando-as para em seguida distribuí-las sobre a mesa que eu ocupei durante o resto da tarde…

Enquanto ela falava da lua cheia e seus rituais… recordei minhas andanças por aí e, finalmente me lembrei do presente que me foi dado aos sete anos… e levei, imediatamente a mão até o meu pescoço, sentindo falta do pentagrama feito com gravetos, pelo mio nono.

Por um segundo, fixei meu olhar junto a figura antiga daquela mulher… na tentativa de ter uma certeza (que não veio) de que tudo não passava de um sonho e só era preciso despertar.

Iniciação
Ricardo Reis

Não dormes sob os ciprestes
Pois não há sono no mundo
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser
Vais na noite só recorte,
Igual a ti em querer.
Mas na Estalagem do assombro
tiram-te os anjos a capa
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que tapa
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu
não tens vestes, não tens nada
Tem só teu corpo, que és tu
Por fim, na funda caverna
Os Deuses despem-te mais
Teu corpo cessa, alma externa
Mas vê que são teus iguais
A sombra de tuas vestes
Ficou entre nós na sorte
Não estás morto entre ciprestes
Neófito, não há morte

Iniciação…

Poesia de Domingo, 05 | 2015

As mãos

Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.

Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.

Escrever é ler,
ler é escrever – eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito – eu vejo-o: nítido –
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.

E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.

Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.

Bernardo Pinto de Almeida

Poesia de Domingo, 05 | 2015