Um dia dedicado a Deusa Brigith

 

I can see lights in the distance
Trembling in the dark cloak of night
Candles and lanterns are dancing,
dancing A waltz on All Souls Night.

(…) All souls night / Loreena McKennitt

 

rituais da grande arte

 

Em tempos idos… no primeiro dia de fevereiro, as mulheres da minha casa cobriam-se com uma capa preta e saiam para caminhar quando a noite deixava seu negro véu cair sobre os lugares…

Durante a caminhada, recolhiam junto ao embornal que levavam consigo: pedras, gravetos, folhas e, sementes.

O destino era um bosque na cidade, onde realizavam seus rituais… segundo o que me disseram na primeira vez que fui levada até lá, o lugar era considerado sagrado há mais tempo do que eram capazes de contar.

As “minhas mulheres” se juntavam à outras que chegavam de diferentes lugares. Seus endereços não eram conhecidos… eram estranhas que viviam na mesma cidade, sem saber muito da vida uma da outra. Eram mães, esposas, filhas, amigas, namoradas, irmãs de alguém e de ninguém ao mesmo tempo.

Ali se encontravam para celebrar as estações do ano, as fases da lua e a essência do ser. Eram mulheres que, assim como eu, tinham sido introduzidas à realidade da grande arte.

Naquele tempo não existia wicca, paganismo, modismo, tampouco exaltação de religiões… eram apenas rituais de tempo. E o que existia de fato era o compromisso individual de treze mulheres perfazendo caminhos que lhe foram ensinados em algum momento de suas vidas.

Naquela noite, celebrou-se Brigith, a dama do Fogo… senhora da inspiração, da arte e também da magia. Acenderam suas velas para representar a volta da luz. A Deusa havia cumprido seu tempo nas trevas, o lugar secreto para o qual caminha lentamente, experimentando “vida e morte” ao mesmo tempo.

As chamas das velas representavam a lei da continuidade. O dia seguinte. A dança da vida se reinventando em passos que nos conduzem por sobre folhas secas, águas calmas e a terra regenerada “é assim que compreendemos os nossos próprios ciclos” disse a nona, que me conduziu para dentro da Arte que sua mãe havia lhe ensinado ao longo de sua infância.

O ritual começava com uma marcha silenciosa… uma espécie de dança circular. A cada passo, uma pedra era colocada no chão, formando o círculo  de poder no meio da mata – a face norte. Nenhuma palavra era proferida, apenas um som mínimo era emitido por elas: uma espécie de canção.

Círculo aberto… do lado de fora ficavam todas as aflições humanas. Ali era um lugar fora do tempo. Só participava quem era convidado. A mais velha levava o caldeirão para o centro. A mais nova, um punhado de terra… e a escolhida uma vela ungida com ervas, que era colocada dentro do caldeirão, como se estivesse plantando-a.

A anciã acendia a vela do caldeirão, que representava a sabedoria de sua caminhada. A idade não importava. Apenas os passos dados ao longo das estações deveriam ser considerados. Era ela a primeira falar… dizendo palavras que representavam seus sentimentos mais sinceros. Não pensava… era tudo instinto pleno, narrando o tempo em que as sementes começavam a despertar do sono profundo para posteriormente brotarem e crescerem… estávamos ali para celebrar esse momento e reverenciá-lo.

A anciã percorria o interior do círculo. Com sua vela acesa em mãos – acendendo vela por vela. Nesse momento tinha inicio a narrativa individual. Cada qual contava a sua lembrança mais antiga… e quando chegou a minha vez, eu não sabia o que dizer. Uma dela me pediu para fechar os olhos, respirar fundo e deixar o coração falar por mim. Me senti arder por dentro ao realizar aquela espécie de meditação… e quando dei por mim, estava a narrar a primeira vez em que sai para caminhar com o mio nono: eu tinha cinco anos. Não sei o que precipitou tal lembrança, mas gosto de acreditar que meu coração escolheu o que dizer.

Terminada a narrativa… uma reverência foi feita ao centro. As quatro direções. A cada uma de nós e também ao infinito… o sino soou três vezes e em seguidas as mulheres começaram a dizer num tom agudo e crescente “fogo do coração – fogo da mente – fogo do lar – fogo do vento – fogo da arte – fogo fora do tempo”. Parecia uma canção que empolgava a pele e também a alma.  O sino novamente soou três vezes e elas disseram ainda mais alto “ele brilha para todos, ele arde para todos”. Novamente o som do sino se fez ouvir três vezes e de repente o silêncio voltou a existir.

Fechamos os olhos… nos permitindo ouvir todos os sons do lugar: grilos, vagalumes, corujas, sapos e muitos outros sons. Em dado momento consegui ouvir apenas as batidos de meu coração pulsando acelerado até acalmar-se… e de repente lá estavam as vozes das mulheres a murmurar desejos e vontades. Havia quem desejasse inspiração, tranquilidade, amor, paixão, amizades, lealdades. Ouvi dúzias de coisas, apreciando cada segundo. Eu só consegui desejar que fosse verdade e não um sonho. 

Voltamos pra casa a passos lentos… já era madrugada alta. A cidade com suas luzes acesas e brisas amenas estava linda – como nunca antes – e, eu tinha dúzias de perguntas, mas não deveria fazê-las ainda – disse-me a nona – as respostas viriam até mim no momento certo… ao chegar a casa, sentamos as duas à mesa da cozinha e tomamos um chá das folhas que havíamos recolhido durante a nossa caminhada. Ainda hoje eu sinto os aromas daquele chá em mim…

 

“Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar é
negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
água negra tudo é vermelho por dentro”.

(…) Ana Harthely

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