Poesia de Domingo, 05 | 2015

As mãos

Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.

Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.

Escrever é ler,
ler é escrever – eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito – eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.

E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.

Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.

Bernardo Pinto de Almeida

Poesia de Domingo, 05 | 2015

Poema de domingo, 04 | 2015

Não sei quantas almas tenho
Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Poema de domingo, 04 | 2015

Poema de domingo, 3 | 2015

ISTO É O MEU CORPO

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.

José Tolentino Mendonça,

Poema de domingo, 3 | 2015

Um dia dedicado a Deusa Brigith

 

I can see lights in the distance
Trembling in the dark cloak of night
Candles and lanterns are dancing,
dancing A waltz on All Souls Night.

(…) All souls night / Loreena McKennitt

 

rituais da grande arte

 

Em tempos idos… no primeiro dia de fevereiro, as mulheres da minha casa cobriam-se com uma capa preta e saiam para caminhar quando a noite deixava seu negro véu cair sobre os lugares…

Durante a caminhada, recolhiam junto ao embornal que levavam consigo: pedras, gravetos, folhas e, sementes.

O destino era um bosque na cidade, onde realizavam seus rituais… segundo o que me disseram na primeira vez que fui levada até lá, o lugar era considerado sagrado há mais tempo do que eram capazes de contar.

As “minhas mulheres” se juntavam à outras que chegavam de diferentes lugares. Seus endereços não eram conhecidos… eram estranhas que viviam na mesma cidade, sem saber muito da vida uma da outra. Eram mães, esposas, filhas, amigas, namoradas, irmãs de alguém e de ninguém ao mesmo tempo.

Ali se encontravam para celebrar as estações do ano, as fases da lua e a essência do ser. Eram mulheres que, assim como eu, tinham sido introduzidas à realidade da grande arte.

Naquele tempo não existia wicca, paganismo, modismo, tampouco exaltação de religiões… eram apenas rituais de tempo. E o que existia de fato era o compromisso individual de treze mulheres perfazendo caminhos que lhe foram ensinados em algum momento de suas vidas.

Naquela noite, celebrou-se Brigith, a dama do Fogo… senhora da inspiração, da arte e também da magia. Acenderam suas velas para representar a volta da luz. A Deusa havia cumprido seu tempo nas trevas, o lugar secreto para o qual caminha lentamente, experimentando “vida e morte” ao mesmo tempo.

As chamas das velas representavam a lei da continuidade. O dia seguinte. A dança da vida se reinventando em passos que nos conduzem por sobre folhas secas, águas calmas e a terra regenerada “é assim que compreendemos os nossos próprios ciclos” disse a nona, que me conduziu para dentro da Arte que sua mãe havia lhe ensinado ao longo de sua infância.

O ritual começava com uma marcha silenciosa… uma espécie de dança circular. A cada passo, uma pedra era colocada no chão, formando o círculo  de poder no meio da mata – a face norte. Nenhuma palavra era proferida, apenas um som mínimo era emitido por elas: uma espécie de canção.

Círculo aberto… do lado de fora ficavam todas as aflições humanas. Ali era um lugar fora do tempo. Só participava quem era convidado. A mais velha levava o caldeirão para o centro. A mais nova, um punhado de terra… e a escolhida uma vela ungida com ervas, que era colocada dentro do caldeirão, como se estivesse plantando-a.

A anciã acendia a vela do caldeirão, que representava a sabedoria de sua caminhada. A idade não importava. Apenas os passos dados ao longo das estações deveriam ser considerados. Era ela a primeira falar… dizendo palavras que representavam seus sentimentos mais sinceros. Não pensava… era tudo instinto pleno, narrando o tempo em que as sementes começavam a despertar do sono profundo para posteriormente brotarem e crescerem… estávamos ali para celebrar esse momento e reverenciá-lo.

A anciã percorria o interior do círculo. Com sua vela acesa em mãos – acendendo vela por vela. Nesse momento tinha inicio a narrativa individual. Cada qual contava a sua lembrança mais antiga… e quando chegou a minha vez, eu não sabia o que dizer. Uma dela me pediu para fechar os olhos, respirar fundo e deixar o coração falar por mim. Me senti arder por dentro ao realizar aquela espécie de meditação… e quando dei por mim, estava a narrar a primeira vez em que sai para caminhar com o mio nono: eu tinha cinco anos. Não sei o que precipitou tal lembrança, mas gosto de acreditar que meu coração escolheu o que dizer.

Terminada a narrativa… uma reverência foi feita ao centro. As quatro direções. A cada uma de nós e também ao infinito… o sino soou três vezes e em seguidas as mulheres começaram a dizer num tom agudo e crescente “fogo do coração – fogo da mente – fogo do lar – fogo do vento – fogo da arte – fogo fora do tempo”. Parecia uma canção que empolgava a pele e também a alma.  O sino novamente soou três vezes e elas disseram ainda mais alto “ele brilha para todos, ele arde para todos”. Novamente o som do sino se fez ouvir três vezes e de repente o silêncio voltou a existir.

Fechamos os olhos… nos permitindo ouvir todos os sons do lugar: grilos, vagalumes, corujas, sapos e muitos outros sons. Em dado momento consegui ouvir apenas as batidos de meu coração pulsando acelerado até acalmar-se… e de repente lá estavam as vozes das mulheres a murmurar desejos e vontades. Havia quem desejasse inspiração, tranquilidade, amor, paixão, amizades, lealdades. Ouvi dúzias de coisas, apreciando cada segundo. Eu só consegui desejar que fosse verdade e não um sonho. 

Voltamos pra casa a passos lentos… já era madrugada alta. A cidade com suas luzes acesas e brisas amenas estava linda – como nunca antes – e, eu tinha dúzias de perguntas, mas não deveria fazê-las ainda – disse-me a nona – as respostas viriam até mim no momento certo… ao chegar a casa, sentamos as duas à mesa da cozinha e tomamos um chá das folhas que havíamos recolhido durante a nossa caminhada. Ainda hoje eu sinto os aromas daquele chá em mim…

 

“Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar é
negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
água negra tudo é vermelho por dentro”.

(…) Ana Harthely

Um dia dedicado a Deusa Brigith

Poema de domingo, 02 | 2015

 

map1-c917Manuel Antonio Pina – 1943 – 2012

 

Tanto Silêncio

Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz “eu”;
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras “o teu coração”)?

Manuel António Pina

Poema de domingo, 02 | 2015

A Lua de Fevereiro

 

lua de fevereiro

 

…é a “lua casta” – a lua da purificação do corpo, da mente e também da alma. É a água corrente. A trilha de terra acontecendo entre pedras. O passo mais lento. A calma e a tranquilidade. Os olhos fechados, a emoção falando alto. É o carinho de mãos, o afago feito com cuidado.

Sua cor é o branco e sua sensação a continuidade. Sua direção: o norte. Seu sentido: a intuição. Seu som é o das batidas do coração.

A meditação é feita junto a aurora… junto aos primeiros raios de sol.

Seu símbolo maior é a águia em seu vôo manso, brando por sobre as coisas humanas, demasiadamente superficiais.

Sua condição é atemporal… tudo é movimento para fora, sentido horário. As seis horas da manhã… quando a prece sem palavras é feita para a Deusa Tríplice.

É a dança completa, dos dias, das horas, do corpo, da arte!
É o começo e também o meio e o fim!

 

Volte a lua a esse verso que tua mão
Escreve, e volta, ao primeiro clarão
Azul, a teu jardim. A mesma lua
Desse jardim irá buscar-te em vão.

E sejam sob a lua dessas ternas
Tardes teu exemplo humilde as cisternas,
Em cujo espelho d´água se repetem
Umas poucas imagens, mas eternas.

Que a lua do persa e os incertos
Dourados dos crepúsculos desertos
Retornem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. Tu és os mortos.

Borges – pág. 45

A Lua de Fevereiro

Quando é que nos afastamos de nós mesmos?

Deixa-me adormecer e não perguntes nada.
O mundo foi alheio e a vida foi comprida
nos seus desenganos de coisa perdida.

Alberto de Lacerda

 

 

Fiz uma pausa em meus dias no final de 2014… ano, cuja soma dos números, curiosamente é sete, esse número tão comum a minha realidade! Talvez por isso, a pausa tenha sido tão necessária. Dois mil e catorze foi um ano de muitos experimentos… tanto ao meu redor, quanto dentro de mim… não é fácil enfrentar-se, tampouco ao outro.  É cansativo, desgastante, mas totalmente necessário…é assim que se dá o tão desejado aprendizado.

A pausa foi até a semana anterior… quando voltei à realidade e, também à vida, precisamente no dia 26 de janeiro, data que se iguala em soma ao ano que temos para nós: 2015. Essas singularidades costumam nortear os meus movimentos. Os números, desde o meu nascimento, brincam comigo, e eu costumo me divertir com esses acontecimentos.

Nada é por acaso, sabemos…. as coisas (todas) acontecem, quase sempre, motivadas por nossas ações. O acaso é uma desculpa comumente usada por nós… que temos a estranha mania de não assumir os nossos atos. Agimos no impulso, motivados que somos, pelo universo ou qualquer outra justificativa banal, inventada na última hora, no último segundo… porque gostamos de dizer em alto e bom tom “tudo acontece independente à nossa vontade”.

Como não faço parte da turbamulta, evito frases prontas e desculpas toscas… preferindo meditar sobre meus passos, movimentos, resultados ou a falta deles. E foi justamente o que me fez passar os últimos dias em silêncio agudo, meditando junto ao branco do teto de meu quarto… observei a mim mesma e todas as coisas que resultaram num grande hecatombe. Fui tragada por esse vórtice e me vi diante da inevitável certeza: o acaso – definitivamente – não me serve.

Percebi, entre muitas coisas, que fiquei pelo caminho um sem fim de vezes. Não conclui certos movimentos, não investi tanto quanto podia em certos passos, abandonei certezas, abracei dúvidas e, no fim, fiquei com o pouco ou nada em mãos. E que diferença faz quando temos apenas o ponto de partida e também o meio do caminho… que nos revelará como sendo uma estrada longa, com um horizonte impossível de se alcançar? Na boca ficou um sabor amargo… que me questionar até mesmo as minhas preferências.

Eu sempre gostei de pautar minha existência de maneira a reconhecer os começos, os meios e principalmente os fins… porque a vida, pra mim, é isso e tudo deve, obrigatoriamente, me levar a  uma conclusão e a um obvio resultado… uma coisa depende – inevitavelmente – da outra… mas, ao rever os meus passos, ficou claro que fui – sempre – em frente, mas sem me levar comigo. Abandonei-me numa dessas esquinas que eu costumo visitar durante minhas caminhadas… e agora, sem fim, me vejo obrigada a dar meia volta para me encontrar, não por acaso, começo a percorrer o caminho que me levará ao meu encontro nesse dia primeiro de fevereiro. Dia da Deusa Brigith a quem acendo velas e incensos desde os meus sete anos, quando sua figura foi introduzida em minha realidade.

Quando é que nos afastamos de nós mesmos?

Poema de Domingo, 01 | 2015

É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada

no mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta

e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito

e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal

se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
mas novamente dói a dor no peito

e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro

onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida

a que chamamos coisa e porém amamos
sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale

e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos

para além do verso e do corpo gasto
sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos

esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno
António Carlos Cortez

Poema de Domingo, 01 | 2015