A outra metade de Ashley Phillips…
Décimo Nono Capítulo
Algo está acontecendo por aqui, mas eu não sei dizer exatamente o que é – ouvi muitas vozes, mas não consegui entende-las, eu bem que tentei. A comida veio há pouco e eu a devorei como um animal devora sua presa e sinto-me um pouco menos fraco e pronto para continuar esses escritos…
Preciso relatar o encontro de Ashley com o jovem que seria o responsável por sua maldição e pela praga que se abateria sobre aquele vilarejo. Ela saíra para uma de suas caminhadas solitárias, como de costume. Ficava lá, diante do lago, ouvindo os mais diversos sons e depois percorria a relva sentindo as mais diversas sensações…
Repentinamente sentiu seu medalhão esquentar e ficou ali, imóvel, de olhos fechados a esperar por um só movimento que fosse e então apontou sua espada na direção da garganta daquele belíssimo jovem com quem seu olhar encontrou-se como se fosse uma faísca do destino, uma espécie de reencontro:
_ Quem és tu que ousa me desafiar com essa espada? Posso derrotá-lo facilmente e nem saberás o que o atingiu…
O sorriso incrédulo de Ashley o incomodou deveras e ele tentou desarmá-la, em vão. Ela era ágil e ele nunca antes tinha tido um adversário assim. Contudo, desistir não fazia parte de sua linhagem e foram muitas as tentativas, até que ela descobriu sua cabeça e exibiu-se na condição de mulher para surpresa total daquele estranho que ficou enternecido por tão bela imagem:
_ Nunca antes havia presenciado uma mulher dominar uma espada como tu o fizestes aqui bem diante de mim. Sinto-me vencido apenas por ter tal honra. Me chamo Vangelis e nada mais, nunca tive um nome de família que tu deves o ter. E tu, qual é o teu nome?
_ Ashley Phillips…
_ Eu venho de…
Mas Ashley não o deixou concluir, caminhou em sua direção, encarando-o atentamente como se ao fazê-lo pudesse ver muito além do que suas palavras pudessem dizer a ela. Um vento forte soprou entre eles e enquanto se olhavam e sentiu a respiração atenta um do outro, souberam absolutamente tudo que precisavam saber um do outro:
_ Eu estava a sua espera.
_ E como isso é possível?
_ Quando nascemos, a Deusa do destino tece nos caminhos e então, se fecharmos bem os nossos olhos, saberemos de onde viemos e pra onde iremos…
_ Eu não acredito em Deusas…
Ashley sorriu, não estava surpresa com aquele comentário. A bem da verdade já esperava ouvir aquela resposta:
_ E acreditas em que Vangelis?
_ Em mim mesmo… Mas já que a moça acredita em Deusa, diga-me qual seria o seu destino?
_ Quando a lua se tornasse negra, ficando assim fora do alcance dos nossos olhos, eu deveria seguir meu coração, ouvir o vento, as lâminas de água e meus pés saberiam exatamente a direção dos meus passos… Então eu encontraria aquele cujo destino e coração foi roubado pelas sombras pouco depois de seu nascimento. Ele seria um guerreiro, mas sua maior batalha seria contra si mesmo…
_ Não é por mim que está esperando. Eu não tive o meu destino roubado por ninguém porque eu mesmo o faço. Sou livre feito o vento…
Ashley tentou tocá-lo, mas ele esquivou-se rapidamente dela, dando-lhe as costas. Ela era uma estranha e dizia coisas ainda mais estranhas, parecia saber coisas que não deveria e isso poderia ser perigoso para ele. Em seu íntimo, naquele momento já tinha nomeado aquela dama como não sendo alguém confiável.
Diante disso, ele lançou mão de sua espada e exibiu a ela que não esboçou qualquer reação. Não ousou defender-se, abrindo os braços como se colocasse sua vida a disposição dele e fechando os olhos, dando a ele uma napa de confiança. Ela não o temia e a proximidade da lâmina afiada da espada de Vangelis junto ao seu corpo parecia não surtir nenhuma reação da parte de Ashley:
_ Eu posso ferí-la mortalmente, já fiz isso milhares de vezes… Isso é um aviso.
_ Se deseja minha vida, assim o será – mas não pode desejar minha morte… Eu sou aquela que pode devolver a você o que lhe foi roubado. Sei de sua força, de sua arte, de sua nobreza e desgraça. Sei que se alimenta do sangue daqueles que são facilmente derrotados por você. Em sua pele há a força de mil animais selvagens e em sua alma há a tristeza de não sentir, não saber, não conhecer a dor, o medo, a verdade sobre si mesmo, a compaixão por aqueles que devoras… E mesmo assim, você dá a eles uma cerimônia digna.
_ Chega…
Naquele momento, nuvens negras surgiram por toda a parte e uma forte tempestade desenhou-se naquele céu. Ele sentiu sede e tinha aquela jovem a sua disposição e não hesitaria em saciar aquele seus desejos que era uma crescente em seus lábios.
Seus olhos estavam avermelhados e sua face ruborizada já exibia seu comportamento indócil de um animal faminto. Ele era selvagem e mesmo assim, Ashley não se movia, mantinha-se ali a sua mercê – Vangelis abandonou a espada no chão e sem titubear apossou-se do corpo daquela bela dama para si. Observando-a atentamente para certificar-se que ela seria seu alimento naquele momento, mas antes que ele a mordesse, a mão esquerde de Ashley tocou seu peito suavemente. Um forte estrondo ocorreu na pele daquela criatura que foi ao chão, prostrada, sentido algo que nunca antes havia sentido em sua pele. Ela parecia rasgar-se, seu corpo todo formigava e o ar parecia faltar. Estava completamente atordoado… A tempestade dizimou-se completamente, ficando apenas o vento forte que parecia varrer toda a paisagem. Todas as chamas de Antares que estavam acesas naquele momento apagaram-se ao mesmo tempo que Vangelis foi ao chão, desfalecido…
>> continua…
Os mistérios de Antares…
Décimo Oitavo Capítulo
Naquele vilarejo eu aprendi a caçar, pescar, empunhar uma espada e golpear com a mente e não com o corpo. Uma estranha arte que Ashley dominava com estranha facilidade e ensinava para alguns que se mostravam interessado em aprender…
Foi ela também quem me ensinou a compreender aquela tal palavra que ela vez ou outra usava e que Sara tantas vezes a pronunciou para mim “tempo”:
_ Observe o céu a sua volta, é fácil compreender. O sol dá inicio a sua dança na direção leste e segue pelo céu lentamente até o oeste, lá estão as novas terras de onde virão aqueles que desenharão na mente dos homens o desejo de poder e um novo deus a quem todos serão submissos por muito tempo e deve saber que será seu medo que ajudará a edificar esse deus…
Ao ouvir aquelas palavras senti uma enorme tristeza em meu peito, respirei fundo e tentei ignorar aqueles dizeres. Eu sei que deveria ter dado atenção ao invés de simplesmente ignorar tudo aquilo que ouvi, mas não o fiz e hoje não consigo evitar pensar que talvez tudo que acontece aqui seja culpa minha, da minha omissão. Sou prisioneiro de minha própria desgraça como tão bem disse Sara certa vez. Eu permiti que as edificações do Castelo da Luz fosse demolidas, assisti passivamente a cada pedra tombada e nada fiz para impedir, muito pelo contrário, eu estava lá ao lado dos homens que ergueram as densas paredes de pedras desse maldito templo erguido pelos homens em honra ao seu novo deus.
Por um momento me desviei completamente de meus afazeres aqui, isso não pode acontecer, preciso relatar tudo isso antes que seja tarde demais, as forças em meu corpo estão se esvaindo e essa pena pesa tanto, as vezes mal consigo enxergar o que está no papel.
Tento não pensar no meu fim, afinal, sou imortal, mas como sobreviverei dessa forma? As vezes sinto que não conseguirei terminar essas narrativas, mas não tenho o direito de pensar assim…
>> continua…
Cuidado com o que deseja…
Décimo Terceiro Capítulo
Hoje trouxeram mais um corpo e lançaram nas valas mal feitas com o descaso de quem joga fora algo que não serve para nada. Poderiam pelo menos dar-se ao trabalho de queimar os corpos…
Mas preciso me ater as minhas lembranças, não posso distrair-me com esses desgraçados… Lembro-me que Sara veio até mim repentinamente feito tempestade que varre a tarde e arrastou-me para longe. Caminhamos sem destino aparente, ao menos era o que eu pensava, mas eu quis parar, queria saber para onde estava indo:
_ Precisamos seguir porque o mal começou a caminhar entre nós há pouco. Não há nada que possamos fazer para impedir isso, mas há outras coisas que podemos impedir. Peter, “alguém em nosso vilarejo irá nos trair ao desejar algo que não deveria ser seu”…
Hoje eu sei que Sara se referia a Louise, a irmã mais velha de Marie. Ela era apaixonada pelo pretendente de sua irmã, o Conde Sebastian. Um homem elegante, amável e admirado por muitos. Lembro-me de têm-lo conhecido assim que cheguei ao vilarejo, a casa que me foi dada de presente era dele, assim como era dele muitas terras nos arredores… Sebastian também era um excelente jogador de pedras e alguém que conhecia muitas histórias de Antares. Eu mesmo passei a admirá-lo depois de muito ouvir suas histórias.
A jovem Louise que se achava encantadora e irresistível não se conformava em saber que aquele homem, dono de tantas terras nas redondezas tinha escolhido sua irmã sem graça e não ela que era bela e fogosa. Então Louise desejou ter o que julgava ser seu por direitos. Ela caminhou até um dos muitos lados sombrios de Antares, que onde segundo a lenda, os desejos poderiam ser alcançados e ela desejou fortemente que o Conde Sebastian fosse seu e não de sua irmã.
Então, durante o caminho de volta, um belo rapaz apresentou-se a ela. Seu rosto era encantador, seu sorriso ardiloso e seu toque era muito envolvente. Ela o desejaria também se já não desejasse ardentemente o que era de sua irmã:
_ Então és tu quem ousa desejar o que não lhe pertence?
_ Como posso eu desejar o que não pertence? Se desejo é porque deve ser meu, estou enganada por acaso?
_ Claro que não minha bela, mas para ter o que tanto desejas, deverá trazê-lo até mim e eu farei com que ele seja seu por toda a eternidade… Mas saiba que devo ser recompensado por isso…
_ O que desejas? É só me dizer… A jovem Louise movimentou-se em sua inquietude, oferecendo seu corpo a ele como forma de recompensa, mas ele não a queria. De fato ela era bela, mas ele sabia pelo cheiro de seu corpo que ela já havia sido de muitos. Ele caminhava ao seu redor, apreciando sua pele macia – para saciar a sede que tinha, ela serviria, mas ele queria mais, queria saciar os muitos desejos que nutria em sua pele e para tal, ele poderia ali mesmo, rasgar as vestes da dama, mas por enquanto, apenas pensar nisso já o satisfazia:
_ Quero aquela que o Conde escolheu, deverá levá-la até mim e oferecê-la como recompensa… Não se demore, pois posso desistir de dar a você o que tanto quer…
Ardilosa, Louise atraiu sua irmã e o Conde para o local combinado como pretexto de dar a eles um presente pelo casamento. Era uma emboscada. Sebastian foi mortalmente atacado e sua irmã Louise foi levada embora em meio a gritos e uma forte luta travada para libertar-se das mãos daquele ser que a dominava com estranha facilidade. Ele tinha na face o sangue do Conde que parecia ser o néctar dos Deuses para ele que simplesmente desapareceu deixando Louise em polvorosa, pois pensou por um instante que o seu Conde estava morto, mas não estava.
Os homens do vilarejo vieram em seu socorro depois de saberem o que tinha acontecido através de Louise que contou a eles uma verdade inventada… Levou várias luas para que ele se recuperasse e quando isso aconteceu, o Conde não era mais o homem que todos admiravam, tão pouco o vilarejo seria como era antes… Mas o desejo de Louise aconteceu, o Conde casou-se com ela em meio a uma grande festa na Lua Cheia seguinte…
>> continue…
O povo de Antares…
Décimo Capítulo
Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos.
E à soga do mesmo carro,
Com os aguilhões que nos ferem,
Nós também lhes demonstremos
Que são mortais e de barro.
Miguel Torga, in ‘Nihil Sibi’
Com o passar dos dias – muita coisa tornou-se Lenda em Antares e ficou difícil saber o que era fato real. As Sombras que se aproveitavam de corpos também ganharam o status de lenda, assim como as divindades que foram por alguns esquecidas… As próprias bestas cairam no conceito comum e como quase não eram mais vistas, também viraram lendas contadas pelos mais velhos que já não tinham mais o mesmo respeito de antes. Eram fracos, atrapalhavam a evolução e facilmente eram abandonados, pois era preciso alimentar os mais jovens que eram fortes e poderiam contribuir para com o avanço da espécie.
As mulheres também foram sendo ignoradas e muitos não davam mais atenção aos seus dizeres proféticos. O preço pago por tamanha ousadia não seria apreciado imediatamente, afinal, tudo acontece a contento…
A espécie humana, aos poucos, começava a exibir superioridade em força e intelecto. Eram realmente capazes de grandes feitos, uns mais que os outros e não demorou para surgir a lei do mais forte dentre aqueles povos. Havia muita coisa misteriosa por trás de cada atitude humana e como tudo era parte integrante de “uma lenda”, os créditos eram dados a própria evolução da espécie…
Não demorou para que um castelo fosse erguido e um Rei fosse encontrado graças a uma nova mística criada entre aquela gente que pouco sabia de si mesmo. “O herdeiro do trono de Antares será aquele que tiver a marca dos Deuses”… Disseram, porque os Deuses ainda eram citados sempre que necessário… E mesmo aqueles que discordavam de tais dizeres, preferiam abaixar a cabeça e concordar para não ser expulso do convívio comum…
O Rei deveria ser amado e idolatrado e em nome dele tudo passou a ser feito. Ele teve o direito de escolher dentre todas as mulheres de seu povo, a sua senhora. Aquela que deveria respeitá-lo e dar a ele um herdeiro, que receberia sua coroa e seu legado… Não levou-se em consideração a vontade da jovem escolhida, nem mesmo seus sentimentos. Importou apenas o interesse do homem que usava na cabeça uma coroa de pedras brilhantes e metal precioso…
Muitas mulheres simplesmente se afastaram e seguiram diferentes direções, o que serviu para gerar novos povos, novos costumes, diferentes culturas e outras muitas lendas…
Uma terra com vários Reis e novas marcações que não demorou a receber a alcunha de “fronteiras”. Um passo dado para fora das divisas criadas e uma guerra seria criada… As cercas se levantaram rapidamente, muito sangue foi derramado e eis que chegou o momento de uma lenda que ainda não havia sido contada por ninguém até aquele momento em Antares fazer valer sua força…
As filhas dos Deuses, cada uma em sua direção, recebeu o poder que a elas fora dado como presente… Começava assim a se definir o véu da superfície de Antares…
>> continua em janeiro…
O Alto da Colina…
Nono Capítulo
E é assim que alguém,
quando morto e ausente eu estiver,
irá escrever sobre a minha vida?
(Como se alguém realmente soubesse
de minha vida um nada,
quando até eu, eu mesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora.)
Walt Whitman
Tradução. Paulo Leminski

Por ser o mais frágil de todos não acreditava-se na profecia da anciã do grupo Sul que dizia que “o mensageiro não terá força e será abandonado a sua própria sorte. Mas haverá força o bastante em sua mente para cumprir com seu destino que é estar diante de todas as conquistas e derrotas de seu povo”…
E assim, o jovem franzino fugiu das sombras e seguiu sua jornada rumo o alto da colina que era conhecida como sendo a casa dos Deuses. Ele era a esperança de sua gente que já sabia que as tais sombras que em outrora haviam sido aprisionadas pela Deusa, estavam novamente a solta e elas eram capazes de tudo, assim como muitos humanos…
O jovem franzino perderia sua juventude naquela caminhada. Não se contavam os anos por ali, mas se o fizessem, seria bem simples determinar que muitos anos se passaram até que Peter Aurius alcançasse seu objetivo.
O alto daquela colina não era exatamente o que ele esperava. Havia um homem sentado diante de uma porta que não levava a lugar algum. Ele estava sozinho, parecia velho demais para salvar qualquer coisa que fosse naquele planeta, mas logo Peter perceberia que mesmo limitado pela velhice, aquele homem ainda era capaz de muitas coisas, inclusive de ouvir os pensamentos dele:
_ Ande, venha até aqui… Eu estava a sua espera. Trouxe sua espada?
_ Espada? Não, claro que não. Nem tenho uma. Vim até aqui porque és tu a esperança de meu povo que sofre nas mãos daqueles que não tinham corpos e que hoje se aproveitam de nós para poder ser o que são.
_ Acha que é por isso que está aqui?
_ Sim meu Senhor. Precisamos de vossa ajuda…
_ Não é por isso que está aqui meu jovem. A voz rouca e fraca daquele Deus deixou Peter inquieto. Como era possível ele ser tão fraco? E como salvaria seu povo se mal conseguia falar? Então Peter o viu levantar e dirigir-se com dificuldade até ele. Seu corpo era pesado demais e Peter percebera isso tão logo seu Senhor apoiou-se sobre seus ombros. Ambos quase foram ao chão:
_ Como percebe, não tenho espada e nem sou forte. Preciso de ajuda…
_ E terás tudo que deseja e um pouco mais também… Mas antes terá que enfrentar-me. É esse o seu destino!
_ De forma alguma farei isso. E sei que não é esse o meu destino.
_ O que sabes tu de teu destino? Teu destino é enfrentar numa luta justa e derrotar-me. Então será teu o meu lugar e quando chegar o momento, deverá caminhar por essas terras em procura da jovem que irá seduzí-lo com tamanha beleza. Ela fará seu coração disparar incontáveis vezes. Ande, empunhe sua espada. Não podemos demorar…
_ Eu já disse que não tenho espada meu senhor…
Peter sentiu-se estranho, sentiu o chão tremer abaixo de seus pés, uma forte luz surgindo de todas as direções o deixou cego e quando se deu por si, estava com uma linda espada em mãos. Ela era feita do mais precioso metal de Antares e reluzia de forma impressionante. Mas a espada também era pesada e ele quase a deixou cair…
Não houve tempo para mais nada, o velho Deus veio em sua direção, com sua espada em mãos e tudo que Peter fez, foi apontar a espada na direção dele. A falta de ação por parte do Deus Ancião o fez ir de encontro a ponta da espada que varou seu frágil corpo para desespero de Peter que não sabia o que fazer.
Tudo a sua volta estava insuportavelmente silencioso, como se a Natureza a sua volta estivesse espantada com aquela atitude tão horrenda:
_ Meu Senhor, me perdoe… Não nos deixe, eu imploro… Meu Senhor, não nos abandone… És tu nossa única esperança…
Foi então que Peter sentiu seu corpo arder como se estivesse sendo queimado vivo. A dor era insuportável e ele foi ao chão, inconsciente…
O filho das “sombras”…
Sétimo Capítulo
(…)
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
T.S.Elliot

Todas as sombras reuniram-se ao pé do carvalho para discutir o que poderiam fazer com aquela novidade. Muitas idéias surgiram, mas a única aceita era também a mais cruel de todas elas. Eles pretendiam enganar os pais de quatro crianças e se aproveitar de um acontecimento raro para transformá-los em herdeiros de seus poderes, conseguindo assim que eles fossem um passo a frente:
_ Acredita mesmo que isso irá funcionar?
_ Claro que sim. Estou atenta a energia desse planeta. Quando o sol está de um lado e a lua do outro, formando uma espécie de linha, alguma coisa acontece nesse planeta e com a chama negra também, ela se intensifica… Então acredito eu que as invocações corretas, conseguiremos fazer com que essas crianças recém nascidas sejam nossas herdeiras…
_ Perfeito… Então que assim seja…
Mas não foi fácil iludir a mãe das crianças que não acreditava que um Deus fosse capaz de pedir tamanho sacrifício a uma mulher. Contudo, foi bem simples convencer os homens da grandeza desse feito. Eles sentiam-se orgulhosos diante da possibilidade de um filho seu ser o escolhido para honrá-los junto aos Deuses e no dia do nascimento dos escolhidos, sem que as mulheres soubessem, eles pegaram os bebês e os levaram até a chama negra para serem sacrificados em nome dos Deuses…
Mas tão logo as mães das crianças perceberam o que estava acontecendo, deram um grito tão alto que toda a natureza alarmou-se enviando aves de rapinas para recuperar os bebês, mas apenas três deles foram recuperados… A mãe de um deles havia falecido e não havia quem gritasse por ele e o pai, munido de um orgulho vergonhoso entregou o próprio filho a Targus que cortou a frágil pele do menino com uma adaga quente fazendo-o sangrar… O sangue do pequenino pingou gota a gota sobre a chama que ardia intensamente como se estivesse assim, sendo alimentada…
Por fim, rasgaram a garganta do homem que deu a eles um herdeiro e o menino foi alimentado com o sangue do próprio pai para em seguida ser entregue a chama que não o queimaria, pois lua e sol encontravam-se alinhados, como se estivessem olhando um para o outro.
O menino fora entregue a Targus que tentou criá-lo, mas o herdeiro da sombras não parecia ter herdado poder algum. Seu corpo era frágil demais, ele vivia doente, tinha dificuldade para respirar, não crescia e sua cor era sempre a mesma: pálida… Tudo isso deixou Targus indignado, afinal, alguém tão frágil não seria páreo para as filhas dos Deuses…
E como não tinha utilidade, o jovem menino fora abandonado nas águas escuras do lado sul para morrer. Mas o destino daquele menino já estava traçado e as águas sabiam disso, por isso ajudaram-no, deixando o corpo fragilizado dele junto a uma margem onde seria facilmente encontrado. E assim o foi…
As filhas dos Deuses…
Quinto Capítulo
Ao mundo que segue em evolução ofereço parte de mim, parte do que fui e parte do que ainda serei… Daqui das alturas, onde habito, desejo que os homens encontrem a boa semente para plantar, a boa vontade para colher e a boa disposição para dar continuidade quando perceber que é preciso voltar ao começo pois o fim é apenas um passo a frente depois que acontece o passado…
Morgana
A lua havia desaparecido por completo do céu quando uma se transformou novamente em quatro. Era o momento de partir, de seguir cada qual a sua direção, rumo a nova morada, onde cada uma delas daria luz a uma menina que ira herdar a arte e a ciência de seus pais…
Voira respirou fundo e lançou sobre seu amado um último olhar. Não era fácil para ela deixá-lo ali, mas era preciso. Ela tentava não lamentar, mas era quase impossível, seu peito estava apertado e a dor que sua alma trazia consigo era desoladora. Mesmo assim ela seguiu sua marcha enquanto entoava um canto agradável que fez com que todos os pássaros que estavam por perto acompanhassem-na naquele canto que durou várias luas…
No dia do nascimento das quatro meninas, a lua estava cheia, nunca antes exibira um brilho tão intenso como naquela ocasião, a natureza estava em festa e a chuva caía sobre todos os cantos daquele planeta formando pequenas poças por toda parte… As meninas recém nascidas foram deixadas em um pequeno cesto nos diferentes lados do lago de águas claras:
“Serão uma só um dia, mas enquanto meninas serão apenas humanas, sem ciência ou arte. No dia em que o sangue determinar a idade de seus corpos, serão como nós e o dom da arte lhes será revelado”.
As lágrimas das Deusas transformaram-se em um belo medalhão que foi colocado junto ao frágil corpo das meninas que sorriam e pareciam felizes. Não havia como saberem o real destino que levavam consigo…
“Que os ventos entreguem-nas a almas dignas de tua presença”…
E as pequenas meninas foram encontradas por quatro mulheres que num primeiro momento ficaram chocadas em ver aquelas criaturas ali, solitárias, abandonadas na beira do lago e levaram-nas rapidamente para suas casas onde elas foram alimentadas e adotadas por aquelas mulheres que iriam amá-las como sendo sangue de seu sangue…
As quatro direções de Antares…
Quarto Capítulo
Existem quatro elementos… Dos quais todos os corpos inferiores são compostos; não empilhados uns por cima dos outros, mas por transmutação e união; e quando são destruídos, dividem-se em elementos. Pois não existem elementos puros, mas sim mais ou menos misturados, e susceptíveis de serem transformados uns nos outros… É esta a origem e fundamento de todos os corpos, naturezas, virtudes e trabalhos maravilhosos; e aquele que conhecer estas qualidades dos elementos, e as suas misturas, produzirá coisas maravilhosas e espantosas e será perfeito na arte da magia.
Cornelius Agrippa

O Guardião voltou cabisbaixo de seu jogo com o Ancião das Sombras, como se buscasse ignorar seus próprios sentimentos e suas muitas certezas. Mas o vento forte passava por ele e parecia dizer em seus ouvidos “nada mais será como antes”… E ele queria acreditar que estava sendo iludido por suas desconfianças acerca daquela criatura que tantas vezes havia semeado a discórdia entre as espécies humanas e mesmo reduzido aquela forma e tendo limitações impostas a ele por Voira, ele seguia insistindo nos mesmos caminhos de antes… Aqueles caminhos que já tinha levado tantos outros planetas a destruição. As vezes ele não concordava com Voira que seguia insistindo em permitir que os humanos definissem seus destinos, afinal, cabia a ela sempre recomeçar o que tinha sido destruído por eles…
Mas seus pensamentos que começavam a tomar direções perigosas, esvairam-se diante da visão de sua amada que veio ao seu encontro. Ela já sabia que tudo estava prestes a se transformar e sua presença impediria que toda a transformação o alcançasse também. De mãos dadas, no meio da mata, olhando firmemente nos olhos um do outro, eles se amaram uma vez mais. Eram livres o amor que nutriam um pelo outro tornava possível a existência de todas as coisas vivas que habitavam aquele planeta:
_ Não se esqueça jamais meu amado que todas as coisas tem o seu devido lugar no universo. Não há verdades sem as mentiras, não há ilusão sem a realidade. É preciso existir o mal para que se conheça o bem. É preciso o fraco para que o forte exista…
_ Perdoe-me por minha breve contestação, mas por um instante, não me pareceu justo para com tua arte, para com tua criação…
_ Nâo é minha arte e nem minha criação. Não faço nada sozinha, até nisso existe equilibrio. Venha… Precisamos chegar a nossa colina…
E a lenta caminhada os levou até o alto da Colina onde eram esperados para dar inicio ao ritual. Cada qual num canto da colina lançou nas diferentes direções um símbolo colhido junto a natureza. Terra, fogo, água e ar estavam ali representados. Surgia ali, naquele momento as quatro direções de Antares: norte, sul, leste e oeste onde cada elemento faria sua morada para em breve receber as filhas dos Deuses…
Reunidas no centro da Colina, onde a força delas era ainda mais intensa, mãos dadas, olhos fechados e todos os mistérios daquelas terras foram por elas invocados. O que era quatro, tornou-se uma e esta entregou-se de corpo e alma ao Guardião que a amou intensamente. A segunda parte do ritual estava completo.
As “sombras” de Antares…
Segundo Capítulo
No tempo da semeadura, aprende;
na colheita, ensina;
no inverno, desfruta.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
William Blake
Antares era um planeta onde todas as forças se exibiam de forma equilibrada. No centro de tudo estava a natureza selvagem de todas as coisas que em sua sabedoria natural permitia que todas as espécies tivessem a mesma possibilidade…
Ao lado sul das terras estavam as forças das sombras que vigiavam atentamente os movimentos iniciais daquelas “estranhas” formas de vida. Eles não possuíam corpos e devido a um acordo firmado com o lado norte das terras, eles não deveriam em momento algum incomodar as forças naturais daquele lugar. Mas se eles não podiam ir até eles, também não impediriam que outros fossem ao seu encontro e era exatamente por essa razão que se mantinham atentos, pois sabiam que em algum momento, aquelas estranhas formas de vida subiriam a colina em busca de algo que desejassem e só pudessem ter através deles…
As criaturas das sombras esperariam uma vida inteira se preciso fosse, afinal, todo aquele planeta era muito jovem, assim como suas formas de vida.
De tempos em tempos, o ancião das sombras seguia rumo a linha central do planeta que dividia-o exatamente ao meio. Era uma configuração surreal, já que de um lado o vento trazia uma densa névoa escura e do outro uma brisa úmida e fria trazia uma fina névoa branca…
O ancião das sombras sempre chegava primeiro e ficava aguardando pelo Senhor de todas as coisas vivas, o Guardião dos guardiões a quem ele odiava com todas as forças, mas fingia dele ser amigo e claro que o grande Guardião sabia do fingimento, mas se mantinha fiel ao acordo firmado entre eles e durante dias inteiros, os dois jogavam pedras… Era um jogo de tabuleiro que parecia não ter fim, já que uma parte sempre desistia antes por alguma razão. Então, eles se cumprimentavam e prometiam voltar para dar continuidade ao jogo…
O ancião das sombras sempre fazia perguntas desagradáveis ou comentários nada oportunos, como naquele momento:
_ Diga-me, porque não podemos nos divertir com essas estranhas criaturas? São tolas e insensatas e nós dois sabemos muito bem qual o destino deles…
_ O que está sugerindo meu caro ancião das sombras?
_ Estou sugerindo não dar tantos poderes a eles. Pra que tanta liberdade? O que farão com ela? Levarão quanto tempo para destruir tudo que existe a volta deles?
_ Combinamos de não interferir na vida deles e assim o será… Com um sorriso pouco habitual nos lábios, o Guardião respirou fundo e encarou o “amigo“ ancião de perto: _ E se aqueles que nos precederam tivessem o mesmo pensamento que o senhor? Não serias o que és hoje. Nem ao menos estaria aqui…
_ É disso que falo, as coisas sempre se repetem. Não está cansado disso? Porque eu estou muito cansado dessa coisa cíclica. Bom pra eles que não se lembram de coisa alguma, mas nós nos lembramos e quantas milhares de vezes mais teremos que vir até aqui, nos sentar pra esse maldito jogo que nunca se acaba? Alguém precisa impedir essa coisa cíclica, de começo, meio e fim e recomeço, meio e fim… Isso é insuportável.
_ Quer impedir a evolução de uma espécie apenas porque não suporta a eterna continuidade de todas as coisas? Finda-te então, bem sabes que é possível, mas não interfira na evolução natural das coisas porque a natureza não permitirá, ela o impedirá de alguma forma. Lembre-se que para cada ação, há uma reação. Não lide com aquilo que você desconhece…
_ Então continua a dar ouvidos aquela maldita mulher. Ela te deu todo o poder e o que faz com ele? Além de ser submisso a ela?
_ Poder? Então é disso que se trata? Agora quem se cansou fui eu. Continuamos num outro momento…
_ Se houver esse outro momento.
O Guardião deu as costas ao ancião e voltou para o lado norte de Antares para desconforto geral de seu “amigo” ancião que voltou para sua casa muito irritado, mas a irritação foi contida quando um dos seus veio com uma excelente notícia:
_ Meu senhor, recebemos a visita de um humano enquanto esteve fora. Ele está cansado de se submeter a ordem dos mais velhos, dos conselhos das mulheres. Acho que temos um humano disposto a interferir. Ele tem planos meu senhor e como és tu o mais velho de todos nós, acreditamos que tens o direito de ficar com o que sobrar dele.
_ E onde ele está?
_ Foi em busca da chama negra. Deve demorar a voltar, mas pedi para que uma sombra o acompanhasse e facilitasse seu trabalho… É claro que ele não faz idéia do que irá acontecer com ele. Sabe apenas que irá ter muito poder e precisava ver os olhos dele, meu senhor: pareciam duas bolas de fogo incandescente…
_ Mas é apenas um… Nós vamos precisar de muitos outros. Eu serei o primeiro e voltarei com humanos suficientes para que todos vocês estejam comigo nesse exercito que mudará para sempre a história de Antares…
_ Que assim seja meu senhor!
_ Eu acho que essa espécie é tão frágil quanto aquela outra e se assim o for realmente, eles vão precisar de um Deus que os guie e conduza para a própria destruição de sua espécie… E então esse planeta será nosso e a história nunca mais será a mesma.
E a gargalhada do ancião se fez ouvir por toda a extensão do planeta, parecia um forte trovão cruzando todo o céu de Antares…
….: A L.E.N.D.A :…
Primeiro Capítulo
Sobrevivência
Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único,
este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre…
Mário Quintana
Aquela era uma estranha terra onde poucos humanos habitavam – a terra ainda era virgem e mesmo assim muito sangue se misturava com a água fresca de seus rios e mares.
A natureza do local parecia hostil e disposta a proteger a si mesma e as vidas daqueles que seguiam seus sábios conselhos através dos Espíritos que deixavam bem claro qual era o papel daqueles humanos naquela terra…
Por ali, havia contrastes interessantes: o verde das matas selvagens em conjunção com o denso azul do céu que nunca mudava de cor. O silêncio absoluto que existia durante algum tempo e então, repentinamente todas as formas de barulhos passavam a existir ao mesmo tempo. Era preciso estar muito atento em momentos como aquele. Tudo podia acontecer e estar vivo depois disso não era exatamente uma tarefa fácil.
Os personagens humanos eram poucos, em sua maioria, seres repletos de uma brutalidade explicita e de uma grotesca forma. Os homens exibiam longos cabelos, barbas enormes e cicatrizes por todo o corpo. As mulheres em sua maioria viviam no mundo subterrâneo, longe das constantes brigas por espaço e comida… Pareciam ser mais civilizadas, menos rudes, mais humanas, menos bichos, mas exibiam vez ou outra um instinto animal, selvagem, capaz de fazê-las devorar alguém como se saboreassem a mais fina refeição. Eram assustadoras… Mas muitas delas eram calmas e brandas não atoa viviam ouvindo os Espíritos das Florestas que avisavam quando era o momento de se mudar… Em dia de lua cheia no céu, elas saíam para caminhar, era nesse momento que estavam protegidas de todas as formas de perigos existentes…
O ambiente natural daquele planeta exibia algumas formas peculiares, como as enormes bestas que eram animais enormes, com fortes garras. Nem preciso dizer que elas eram exímias caçadoras. Viviam em bando e atacavam quando a distração estava presente. Era impossível vencê-las. Então tornou-se um costume alimentá-las com os anciãos do grupo. Sacrifícios em nome da maioria… Não havia como escapar daquele destino, eles corriam na tentativa de sobreviver, mas eram alvos fáceis e acabavam devorados em poucos segundos…
As árvores do planeta pareciam ter vida própria, chegando a movimentar-se de acordo com o tempo que ali naquelas terras ainda não tinha uma definição possível. Sem ponteiros, sem formatos de orientação, apenas o cansaço nos músculos que os levavam a “desmaiar” e despertar depois do recobrar das forças. Quase sempre despertavam assustados sem compreender direito o que havia acontecido com eles. Muitos acreditavam que os Deuses haviam poupado suas pobres almas da morte…
Por toda a extensão do planeta existiam lugares onde não era possível colocar os pés. Os mais ousados que se recusavam a dar ouvidos as mulheres, pagavam um alto preço. Os que tinham mais sorte, acabavam devorados pelas bestas, não vale a pena mencionar o que acontecia com os menos afortunados.
Eles eram nômades, seguindo o conselho das mulheres do grupo migravam de um lado para o outro, tomando o devido cuidado de não invadir o território de outros povos porque todo contato acabava em brigas sem fim, até que um lado caísse e servisse de alimento para os sobreviventes… Não se somava, apenas se subtraía, a morte, definitivamente era a punição aos fracassados…
Assim era Antares, um planeta onde as mais estranhas formas de vida despertaram repentinamente e todos tinham um mesmo desejo: sobrevivência…




Peregrinos...