O livro das quatro direções
São Paulo, final de tarde, Parque do Ibirapuera…
O silêncio daquela paisagem me remetia a outras terras, outros campos, outros ambientes. A ausência do elemento urbano naquele dia parecia tão forte que aos poucos fui me desprendendo da figura tão forte da metrópole a minha volta. Os sons dos carros foram se distanciando, de pessoas escapando e de repente me vi ali dentro do parque, com suas árvores e lagos. As cores foram se intensificando a minha volta. O calor do sol tocou suavemente a minha pele, tanto quanto o vento. Senti uma tranquilidade pouco comum a mim naqueles dias de tempestades. Meu corpo estava ali, encostado naquela árvore de frente para o lago. Meu pés descalços sentiam a energia da terra. Eu não me movi por alguns instantes e sei que adormeci ali…
Quando despertei daquele sono no meio da tarde, uma canção antiga estava em minha mente e eu podia cantá-la como se fosse algo que eu sempre fosse capaz de fazer. Dúzias de lembranças foram chegando, me envolvendo. Eu tive cinco, seis, nove, doze, quinze, vinte e vinte um anos. Revi movimentos conhecidos. Senti sabores antigos (já esquecidos em alguma parte de mim). Cantei músicas de outrora. Foi como abrir um velho baú e aos poucos ir tirando de lá de dentro coisas de uma vida inteira.
Revi dezenas de lugares antigos, visitados por mim: outros parques, lagos, estradas, campos, casas, vilas, mares, oceanos. Fui e voltei. Me perdi. Me encontrei e quando dei por mim a tarde já se exibia com seus tons alaranjados. Começava a anoitecer. As primeiras luzes artificiais se acendiam ao longo do parque e da cidade. Soube naquele momento que não era por acaso a escolha feita dias antes. Estar naquele lugar, naquele momento era o meu dia seguinte.
O Parque do Ibirapuera começou a ser refeito para os meus olhos, para a minha mente e para a minha alma. É impressionante como a ausência de luz transforma as coisas a nossa volta.
Naquele fim de tarde, começo de noite eu não tinha um só incenso, uma única vela que fosse. Mas eu tinha o meu corpo e todos os meus desejos se manifestando em minha pele. Saudei as quatro direções, os quatro elementos, repetindo gestos presenciados ainda no tempo da infância e agradeci a senhora da vida, a grande mãe na figura de Gaia com um punhado de palavras que vieram do fundo do meu sentir.
Soube ao terminar aquele pequeno ritual de passagem que eu estava de volta as origens. Eu finalmente havia reencontrado o “meu norte”.
São Paulo, segunda-feira, 26 de agosto de 2002
Lunna Guedes
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