No, non há l´inferno, tu é bobo

Fecho a semana com uma lembrança, que surgiu após alguém vir aqui comentar, dizendo que “eu sofro porque falta Jesus em meu coração”:

Certa vez presenciei um discurso inflamado de um Padre (cristão) falando sobre o inferno e seus demônios. Lembrei imediatamente dos trechos bíblicos que havia lido, onde mencionava Lúcifer e como ele havia sido banido por deus dos céus.

É claro que um sorriso se ocupou de meus lábios, afinal, na bíblia havia dizeres inflamados sobre perdão e tudo mais. Mas deus não havia perdoado Lúcifer e ainda o havia arremessado para as profundezas da terra, onde foi acorrentado por sentir inveja da luz divina. Ao mesmo tempo me lembrei das inúmeras vezes em que eu ouvi dizer que a terra é lugar de expiação; que todos aqui vivem em pecado; que a humanidade já nasce com o tal pecado original. Ou seja, a culpa de ser quem somos. A famosa culpa cristã.

Antes de voltar para o caminho da Arte, eu trilhei muitos caminhos porque me deram essa possibilidade. Estudei muitas crenças, religiões. O cristianismo foi apenas uma delas. E foi a primeira para quem fechei os olhos, afinal, me incomodava a bendita mania de impor ao homem essa concepção de pecado.

Pois bem, voltando ao discurso feito pelo Padre, ele falou durante quinze minutos (ou mais) sobre o inferno, lugar para onde, de acordo com sua filosofia, irão os hereges, aqueles que renegam a deus, ao seu filho e ao espirito santo, pois somente aqueles que o adoram estarão salvos no juízo final.

Fiquei lá. Aguentei bravamente toda aquela falácia. Respirei fundo e tive pena daquele homem. Mas tive mais pena ainda de todas aquelas pessoas que ocupavam suas mentes daquele discurso que o tal padre vociferava contra todos que trilhavam outros caminhos. O tom usado por ele era o que mais me incomodava. Era como ouvir chicotadas ressoavam na pele de alguém, infligindo uma sonora pena por não acreditar no mesmo deus que ele. Todos que eram diferentes (como se não fosse um direito ser assim) eram verdadeiros criminosos na fala daquela homem que pregava em suas palavras o preconceito. Era assustador, o inferno realmente existia. Bem ali naquele lugar, naquele momento. E tudo justificado pela crença em um deus.

Ao final, aguardei todos saírem e fiquei observando aquela cruz ao centro, com aquela figura crucificada. Nunca consegui acreditar de fato naquela figura mística. Sempre faltaram elementos, argumentos razoáveis para confiar de fato em sua existência. Mas nunca me senti no direito de questionar a fé alheia. Acho que aquelas pessoas que lá estavam, ocupando o banco daquela igreja tinham direito de acreditar, tanto quanto eu de não acreditar.

O padre que estava retornando de sua sessão de apertos de mãos, tapinhas por sobre os ombros e tudo mais – encontrou-se comigo ali, sentada num dos primeiros bancos a apreciar aquela figura insipida. Ele pousou sua mão sobre o meu ombro e disse “deseja confessar-me sua dor minha irmã em Cristo?” – dito isso, eu só consegui me levantar, pedir licença em meio a um sorriso e sair andando apressadamente daquele lugar enquanto ouvia ao fundo todos os padecimentos de que eu haveria de sofrer no inferno.

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Sobre Lu Guedes

Divido-me entre os lados insanos de minha alma: escrevo durante as madrugadas e deliro durante os dias...

One response to “No, non há l´inferno, tu é bobo”

  1. Gwydion says :

    Nossa!
    Vc falou TUDO
    e mais um pouco!

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