Poesia Portuguesa (com certeza)

Bom dia a todos.
O outono está se aproximando aos poucos. Não sei se perceberam, mas aqui em São Paulo, os dias seguem quentes, mas já é possível sentir aquele vento ameno e os dias cinzentos já se exibem por aí. Ontem e hoje a manhã demorou a exibir o sol…

São detalhes que precisamos perceber diariamente para melhor compreender a natureza a nossa volta. A Camélia floresceu, como de costume. A Angélica também. Várias árvores da rua estão exibindo coloridos deliciosos. Coisa de um país tropical…

A amoreira aqui de casa está exibindo folhas envelhecidas, mas muitas renovadas, num verde gostoso, quase carinhoso. Dá pra entender isso?

Bem, outono aqui em casa lembra duas coisas: chocolate quente e poesia.
O chocolate quente é bem simples: basta reunir no liquidificador 04 colheres de chocolate em pó (eu uso aquele do frade) meio litro de leite, 01 lata de creme de leite sem soro e 02 colheres de sopa de leite condensado. Detalhe. A Lu diz que quanto mais tempo você bater a mistura no liquidificador, mais ele fica cremoso. Depois, leve ao fogo baixo para aquecer, mexendo  sempre com uma colher de pau para não grudar no fundo e pronto. É só servir… Mais isso não é pra hoje, afinal, ainda está quente.

Mas hoje, podemos servir poesia. Não é uma boa idéia? Mesmo não sendo segunda-feira,  dia da Lua e da Poesia. A Lu gosta muito de poesia portuguesa e há algum tempo que ela vem dizendo que os poetas portugueses estão num melhor momento em comparação aos brasileiros. Segundo ela, o atual momento da poesia brasileira tem deixado muito a desejar…

Por isso, escolhi  Al Berto que é um poeta português, natural de Sines, nascido em 1948 e morte em 1997. Sua história nos revela que a partir de 1971 a literatura passou a ser figura sempre presente em sua vida. Seu livro de estreia foi  À Procura do Vento no Jardim de Agosto publicado em 1977.
Como muitos autores de sua geração, deixou vários textos incompletos: uma ópera, um livro de fotografias sobre Portugal e uma “falsa autobiografia”, como o próprio autor a intitulava

Um de seus livros mais interessantes é Salsugem de onde selecionei os dois poemas que eu espero que gostem.

Cromo

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua… gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma coleção de sonhos lunares
e ao acordar… a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo… como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

Al Berto

*****

Salsugem

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu….como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas esperando o mar
e a longitude do amor embarcado…..
….por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite…
….os dias lentíssimos….sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta…. dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci…. acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão….
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me
uma pérola no coração. Mas estou só, muito só,
não tenho a quem a deixar.)
…. um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta….
…. inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite
a felicidade.

E pra quem não sabe, ontem foi dia de San Valentin ou seja Valentine´s Day, também conhecido como o Dia dos namorados e a Lu nos contou lá em seu Sótão as lendas acerca desse dia, clique aqui para ler

Grande abraço
Marco

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Sobre Marco Antonio

Engenheiro por formação, artesão por definição. Um praticante dedicado das boas coisas da vida...

4 Responses to “Poesia Portuguesa (com certeza)”

  1. Madalena Barranco says :

    Al Berto, obrigada pelo achado, Marco!! Viajei pela poesia desse homem que sabia que nunca saberia o nome de tal oceano…

    Beijos à Você e à querida Lu.
    Com carinho, Madalena
    P.S.: minha mãezinha também lhe retribuiu o abraço.

  2. Strega Mamma says :

    Maravilhosos…Bjs e Bênçãos !

  3. José Reis Bilé says :

    NA TERRA NÃO SE É PROFETA
    Na terra não se é profeta
    diz-nos a Bíblia Sagrada
    nem sequer se é poeta
    cantando a terra amada.

    Os poemas têm mais sabor
    cantados pelos de fora
    que á terra não têm amor
    nem a nossa terra adora.

    De gostar até ao amar
    vai uma grande diferença
    ninguém pode adorar
    terra que lhe não pertença.

    Meus versos são uma prece
    uma prece sem refrão
    desabafo de um Alterense
    natural de Alter do Chão.

  4. José Reis Bilé says :

    EU CANTO O MEU PAÍS

    Eu canto o meu país
    canto a minha Pátria amada
    queria sentir-me feliz
    nesta terra malfadada

    Terra de poetas e de escritores
    de descobridores de novas terras
    de imortais nas grandes guerras
    de santos evangelizadores
    de humildes e de traidores
    e outros que o destino quis
    de impostores que ganharam raíz
    renegaram a sua raça
    arrastaram o povo á desgraça
    eu canto o meu país.

    Tenho lido o teu passado
    tenho vivido o teu presente
    agora vejo-te diferente
    daquele que foi traçado
    hoje estás velho e cansado
    de tanta luta travada
    entregaram-te e ficaste em nada
    perdeste o orgulho e a glória
    o presente envergonha a história
    canto a minha Pátria amada.

    Óh minha Pátria doirada
    p’lo doirado do teu trigo
    venceste sempre o inimigo
    na altura desejada
    hoje estás velha e cansada
    falta-te um Mestre de Aviz
    e eu… que por Ti nada fiz
    e como eu há tanta gente
    queria ver-te contente
    queria sentir-me feliz.

    Queria colaborar na vitória
    e a nossa Pátria defender
    não me importava morrer
    para honrar a nossa história
    que de vindoiros seria a glória
    de gente sacrificada
    por traidores condenada
    ao sabor do estrangeiro
    em troca de bens e dinheiro
    minha Pátia malfadada.

    De: J.R.B.

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