A lágrima da Ninfa – final

Ávido para iniciar a alquimia ia lendo os ítens e ao mesmo tempo separando-os sobre o balcão, até que leu o último ingrediente que pedia – Lágrimas de Ninfa.
Nesse momento sua expressão que era de contentamento, reverteu-se em desespero, exclamando:

- Por Merlin!! Estou mesmo sem sorte… se ao menos eu lembrasse onde tomar a barca para a Ilha Sagrada de Avalon…
Avalon era um lugar místico, cercado de brumas, onde vivia um povo misterioso e dotado de incríveis poderes extra sensoriais, envolvidos em muita magia. Onde as ninfas corriam livres pelas florestas.
Sua paixão por Melina talvez o levasse à loucura. Ansiava em ser formoso novamente, e assim conquistar-lhe o coração.

Então sem perda de tempo deu início à alquimia, mesmo estando ciente que faltava-lhe um ingrediente.
O aroma forte de mirra invadia toda a cabana escapando pelas frestas, inebriando a madrugada.
Odeon usava esta resina aromática com a finalidade de purificar o ambiente e prepará-lo para suas experiências místicas. Então sem demora, o druída concluía a mistura milagrosa, que supostamente faria seu rosto voltar ao normal.
Tão logo ficou pronta a poção, deveria ficar em decantação por um período mínimo de 2 horas. Então Odeon resolveu descansar.

Às primeiras luzes da aurora ele desperta, vigoroso e confiante. Aproximou-se do tacho sentindo o aroma floral. A fórmula rezava que o líquido deveria ser passado nas partes afetadas, então lavou o rosto delicadamente, esperando que secasse ao natural. Assim que seu rosto secou, Odeon levantou-se pegando um caco de espelho, tão grande era o pavor de olhar-se em um inteiriço. Foi quando viu pelas beiradas do caquinho algumas de suas profundas cicatrizes. Soltando um urro medonho terminou de quebrar o que restava do espelhinho. Saiu transtornado floresta adentro, atirando-se em meio às folhagens, e então chorou como nunca havia chorado antes, porem sem suspeitar, o druída estava sendo observado por um vulto logo atrás de uma pedra.

Após tanto desespero, o pobre homem levantou-se deixando-se levar pela própria sorte, caminhando em direção a cabana. De repente estancou os passos, olhando para trás…Era estranho, mas tinha sensação de que alguém o seguia.

Enquanto caminhava ia traçando seus planos: iria embora daquele maldito lugar, mesmo sabendo que sua maldição o acompanharia e todos os lugares para ele, seriam amaldiçoados.

Entrando rapidamente na cabana, começou a ajuntar suas "tralhas": toda sorte de potes, frascos e livros…tudo ia sendo jogado dentro de um enorme saco de viagem. Frenéticamente caminhou até o tacho, dizendo:

- Farsa! Esta fórmula é uma farsa!
Abaixou-se ali, sem forças, proferindo em tom baixo algumas palavras maldizendo a vida. Foi quando sentiu sobre seu ombro um leve toque…
mãos femininas…Assustado, apavorado ou mesmo aparvalhado, Odeon levou um choque. De pé, bem à sua frente estava Melina, que aturdida, fitava aquele rosto grotesco tomado pela desgraça.

- Vá embora!! O que faz aqui?

- Acalme-se, por favor. O que houve por aqui? Por que seu rosto ficou assim?

- Oras…Será que lhe dou uma explicação? Por que deveria? Vá embora, eu já disse!!! Você é apenas uma estranha.

- Tem certeza do que diz? Sei quem é você, espiava-me em meus banhos… É o mesmo homem que fugiu de mim com o rosto enlameado.
Nesse momento, Odeon tira um punhal da cintura ameaçando matar-se.
Melina em desespero começa a chorar… Então duas lágrimas de mãos dadas correm pela face caindo dentro da poção. Imediatamente o líquido entra em ebulição e uma névoa perfumada envolve a cabana. Num sobressalto, Odeon deixa cair o punhal e em apenas um passo alcança o tacho. Com as mãos em conchas, retira parte do líquido místico lavando o rosto. Uma sensação de torpor toma-lhe conta, fazendo-o perder os sentidos.

Tudo estava terminado. O desejo do druída finalmente fora realizado. Seu rosto transformara-se e novamente voltara a ser um belo homem. Entretanto, quando recobrou os sentidos Melina havia desaparecido.

Diz a lenda que as ninfas jamais poderiam apaixonar-se, essa era a lei. E se isso acontecesse, em brumas se transformariam, retornando ao lugar de origem.

De Odeon nada mais se soube. Contam os aldeões que ele virou constelação, e em noites de lua cheia seu rosto brilha no céu, refletindo seu lume no lago.
O lago da ninfa que abriga a constelação de Odeon.

 

Biografia

Lucia Helena O. Cavichioli é escritora/poeta paulistana e esteticista, com conhecimentos em psicologia começou a escrever na adolescência, ocasião em que teve seu primeiro poema publicado em um jornal da época, na coluna de um professor.

Aluna do curso de secretariado foi coordenadora do jornal da escola a convite do corpo docente. Participou de duas antologias: Forja da Liberdade – com o conto “Almas Gêmeas”, e, de a Árvore da Vida, com “O Conto do Relógio”, da editora Arnaldo Giraldo.

Em 2008 publicou sua coletânea poética por nome Re(cantos)de Mim pela editora All Print. A autora cativou amigos virtuais com seu estilo contemporâneo, despojado e original.

Ela escreve em vários gêneros com destaque para a ficção, onde seu gosto pela literatura fantástica se traduz na busca pela alma da natureza humana.

Madalena Barranco

Meus blogs:
http://escritosnamemoria.blogspot.com
http://retratosemdegrade.blogspot.com
http://fadaspontocom.blogspot.com

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Sobre Lu Guedes

Divido-me entre os lados insanos de minha alma: escrevo durante as madrugadas e deliro durante os dias...

5 Responses to “A lágrima da Ninfa – final”

  1. Arcanjo says :

    Que final… triste

  2. georgia aegerter says :

    Uma bonita lenda com final triste. Assim como muitas das vezes na vida de muitas pessoas.

    Só lamento que passamos muitas das vezes correndo atrás do que é belo e perfeito e deixamos de viver o presente;

    Bjao

  3. leci irene says :

    Geralmente as lendas tem um final que as meninas românicas não admitem: separação, não realização dos desejos….
    Amei.. o final triste? não, amei poder ler esta lenda!

  4. Madalena Barranco says :

    Ah, não é triste… Depende do ponto de vista – rsrsrs. Afinal, não somos todos estrelinhas no Universo da Luz?

    Beijos especiais à querida Lu Cavichioli.

  5. Andrei says :

    Que belo conto. Parabéns.

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