A outra metade de Ashley Phillips…

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Décimo Nono Capítulo

Algo está acontecendo por aqui, mas eu não sei dizer exatamente o que é – ouvi muitas vozes, mas não consegui entende-las, eu bem que tentei. A comida veio há pouco e eu a devorei como um animal devora sua presa e sinto-me um pouco menos fraco e pronto para continuar esses escritos…

Preciso relatar o encontro de Ashley com o jovem que seria o responsável por sua maldição e pela praga que se abateria sobre aquele vilarejo. Ela saíra para uma de suas caminhadas solitárias, como de costume. Ficava lá, diante do lago, ouvindo os mais diversos sons e depois percorria a relva sentindo as mais diversas sensações…

Repentinamente sentiu seu medalhão esquentar e ficou ali, imóvel, de olhos fechados a esperar por um só movimento que fosse e então apontou sua espada na direção da garganta daquele belíssimo jovem com quem seu olhar encontrou-se como se fosse uma faísca do destino, uma espécie de reencontro:

_ Quem és tu que ousa me desafiar com essa espada? Posso derrotá-lo facilmente e nem saberás o que o atingiu…

O sorriso incrédulo de Ashley o incomodou deveras e ele tentou desarmá-la, em vão. Ela era ágil e ele nunca antes tinha tido um adversário assim. Contudo, desistir não fazia parte de sua linhagem e foram muitas as tentativas, até que ela descobriu sua cabeça e exibiu-se na condição de mulher para surpresa total daquele estranho que ficou enternecido por tão bela imagem:

_ Nunca antes havia presenciado uma mulher dominar uma espada como tu o fizestes aqui bem diante de mim. Sinto-me vencido apenas por ter tal honra. Me chamo Vangelis e nada mais, nunca tive um nome de família que tu deves o ter. E tu, qual é o teu nome?
_ Ashley Phillips…
_ Eu venho de…

Mas Ashley não o deixou concluir, caminhou em sua direção, encarando-o atentamente como se ao fazê-lo pudesse ver muito além do que suas palavras pudessem dizer a ela. Um vento forte soprou entre eles e enquanto se olhavam e sentiu a respiração atenta um do outro, souberam absolutamente tudo que precisavam saber um do outro:

_ Eu estava a sua espera.
_ E como isso é possível?
_ Quando nascemos, a Deusa do destino tece nos caminhos e então, se fecharmos bem os nossos olhos, saberemos de onde viemos e pra onde iremos…
_ Eu não acredito em Deusas…

Ashley sorriu, não estava surpresa com aquele comentário. A bem da verdade já esperava ouvir aquela resposta:
_ E acreditas em que Vangelis?
_ Em mim mesmo… Mas já que a moça acredita em Deusa, diga-me qual seria o seu destino?
_ Quando a lua se tornasse negra, ficando assim fora do alcance dos nossos olhos, eu deveria seguir meu coração, ouvir o vento, as lâminas de água e meus pés saberiam exatamente a direção dos meus passos… Então eu encontraria aquele cujo destino e coração foi roubado pelas sombras pouco depois de seu nascimento. Ele seria um guerreiro, mas sua maior batalha seria contra si mesmo…
_ Não é por mim que está esperando. Eu não tive o meu destino roubado por ninguém porque eu mesmo o faço. Sou livre feito o vento…

Ashley tentou tocá-lo, mas ele esquivou-se rapidamente dela, dando-lhe as costas. Ela era uma estranha e dizia coisas ainda mais estranhas, parecia saber coisas que não deveria e isso poderia ser perigoso para ele. Em seu íntimo, naquele momento já tinha nomeado aquela dama como não sendo alguém confiável.

Diante disso, ele lançou mão de sua espada e exibiu a ela que não esboçou qualquer reação. Não ousou defender-se, abrindo os braços como se colocasse sua vida a disposição dele e fechando os olhos, dando a ele uma napa de confiança. Ela não o temia e a proximidade da lâmina afiada da espada de Vangelis junto ao seu corpo parecia não surtir nenhuma reação da parte de Ashley:

_ Eu posso ferí-la mortalmente, já fiz isso milhares de vezes… Isso é um aviso.
_ Se deseja minha vida, assim o será – mas não pode desejar minha morte… Eu sou aquela que pode devolver a você o que lhe foi roubado. Sei de sua força, de sua arte, de sua nobreza e desgraça. Sei que se alimenta do sangue daqueles que são facilmente derrotados por você. Em sua pele há a força de mil animais selvagens e em sua alma há a tristeza de não sentir, não saber, não conhecer a dor, o medo, a verdade sobre si mesmo, a compaixão por aqueles que devoras… E mesmo assim, você dá a eles uma cerimônia digna.
_ Chega…

Naquele momento,  nuvens negras surgiram por toda a parte e uma forte tempestade desenhou-se naquele céu. Ele sentiu sede e tinha aquela jovem a sua disposição e não hesitaria em saciar aquele seus desejos que era uma crescente em seus lábios.

Seus olhos estavam avermelhados e sua face ruborizada já exibia seu comportamento indócil de um animal faminto. Ele era selvagem e mesmo assim, Ashley não se movia, mantinha-se ali a sua mercê – Vangelis abandonou a espada no chão e sem titubear apossou-se do corpo daquela bela dama para si. Observando-a atentamente para certificar-se que ela seria seu alimento naquele momento, mas antes que ele a mordesse, a mão esquerde de Ashley tocou seu peito suavemente. Um forte estrondo ocorreu na pele daquela criatura que foi ao chão, prostrada, sentido algo que nunca antes havia sentido em sua pele. Ela parecia rasgar-se, seu corpo todo formigava e o ar parecia faltar. Estava completamente atordoado… A tempestade dizimou-se completamente, ficando apenas o vento forte que parecia varrer toda a paisagem. Todas as chamas de Antares que estavam acesas naquele momento apagaram-se ao mesmo tempo que Vangelis foi ao chão, desfalecido…

 

>> continua…

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Sobre Marco Antonio

Engenheiro por formação, artesão por definição. Um praticante dedicado das boas coisas da vida...

4 Responses to “A outra metade de Ashley Phillips…”

  1. Zélia says :

    Ai, ai, ai. Adorei e agora quero mais.

  2. Francy´s says :

    Já vi tudo, vai rolar um romance entre os dois. adorei (2)

  3. Agnes says :

    Adorei (3).
    Cara, então o filho das sombras se chama Vangelis? Adorei esse nome.

  4. Alex says :

    Nossa, adorei essa história, um amigo me indicou e comecei a ler. Você já pensou em publicá-la? Muito legal. O chato é ficar querendo mais e não ter mais para ler. Até amanhã. bj

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