Poesia é tempo sem ponteiros…

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René Magritte. The Lost Jockey. 1948. Gouache on paper

Pelo luar azul, entre montes e águas,

Pelo luar azul, entre montes e águas,
sobre a madrugada de galos e orvalhos,
quem chega de longe, com tão sobre-humano
cansaço que, ah! Nem tem palavras!

Do fundo da terra chegava, por úmidas
escadas de trevas olentes, profundas,
Entre esquecimentos e lembranças do húmos:
negras raízas de que frutos?

Ah, como é tão vago o país dos vivos!
Como vão ficando tênues seus caminhos,
tênues e sombrios e tão exaustivos…
E arquiteturas sem sentido.

Abriam-se as portas. Entravam. Miravam.
Tinham novos olhos, de pupilas vagas
Para reinos de santos e larvas
E escuridões transfiguradas

Ficavam tão tristes! Porém era sonho.
Não havia nada nem vivo nem morto
Só clarividente sonho. E esse desgosto
do humano: tão pobre, tão pouco.

Cecília Meireles

Cecília Meireles, como toda mulher tem um lado “bruxa” e no livro Solombra (que a Lu anda lendo diariamente) podemos ver esse lado com maior intensidade, ele fala da morte como se tentasse compreender esse mistério.

Na orelha do livro está escrito que Solombra é um livro para ser lido de um fôlego só. A Lu ignorou isso completamente e a leitura aqui é lenta. Tanto que vez ou outra, encontro o livro nos mais diversos cantos da casa: no criado mudo, na mesa da cozinha, da sala, no canto da televisão e por aí vai… E é nesses meus curiosos encontros com esse livro que eu vou lendo poema a poema, sem pressa porque já percebi que poesia é tempo sem ponteiros…

Grande abraço
Marco

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Sobre Marco Antonio

Engenheiro por formação, artesão por definição. Um praticante dedicado das boas coisas da vida...

3 Responses to “Poesia é tempo sem ponteiros…”

  1. Lunna says :

    Cecília Meireles é algo sensacional, não é mesmo??? E melhor ainda é saber que você a encontra pela casa graças a mim que a “esqueço” por aí vez ou outra. Bacio en tuo cuore amore mio

  2. Lunna says :

    Esqueci de dizer que eu adorei encontrar Magritte e Cecília num só post. hehehehe

  3. Maria Augusta says :

    Que poema maravilhoso, Cecília Meirelles é demais, em qualquer compasso, lento ou acelerado. E como a Lunna, adorei a tela do Magritte também.
    Abraços e um bom fim de semana para vocês.

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