O Alto da Colina…
Nono Capítulo
E é assim que alguém,
quando morto e ausente eu estiver,
irá escrever sobre a minha vida?
(Como se alguém realmente soubesse
de minha vida um nada,
quando até eu, eu mesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora.)
Walt Whitman
Tradução. Paulo Leminski

Por ser o mais frágil de todos não acreditava-se na profecia da anciã do grupo Sul que dizia que “o mensageiro não terá força e será abandonado a sua própria sorte. Mas haverá força o bastante em sua mente para cumprir com seu destino que é estar diante de todas as conquistas e derrotas de seu povo”…
E assim, o jovem franzino fugiu das sombras e seguiu sua jornada rumo o alto da colina que era conhecida como sendo a casa dos Deuses. Ele era a esperança de sua gente que já sabia que as tais sombras que em outrora haviam sido aprisionadas pela Deusa, estavam novamente a solta e elas eram capazes de tudo, assim como muitos humanos…
O jovem franzino perderia sua juventude naquela caminhada. Não se contavam os anos por ali, mas se o fizessem, seria bem simples determinar que muitos anos se passaram até que Peter Aurius alcançasse seu objetivo.
O alto daquela colina não era exatamente o que ele esperava. Havia um homem sentado diante de uma porta que não levava a lugar algum. Ele estava sozinho, parecia velho demais para salvar qualquer coisa que fosse naquele planeta, mas logo Peter perceberia que mesmo limitado pela velhice, aquele homem ainda era capaz de muitas coisas, inclusive de ouvir os pensamentos dele:
_ Ande, venha até aqui… Eu estava a sua espera. Trouxe sua espada?
_ Espada? Não, claro que não. Nem tenho uma. Vim até aqui porque és tu a esperança de meu povo que sofre nas mãos daqueles que não tinham corpos e que hoje se aproveitam de nós para poder ser o que são.
_ Acha que é por isso que está aqui?
_ Sim meu Senhor. Precisamos de vossa ajuda…
_ Não é por isso que está aqui meu jovem. A voz rouca e fraca daquele Deus deixou Peter inquieto. Como era possível ele ser tão fraco? E como salvaria seu povo se mal conseguia falar? Então Peter o viu levantar e dirigir-se com dificuldade até ele. Seu corpo era pesado demais e Peter percebera isso tão logo seu Senhor apoiou-se sobre seus ombros. Ambos quase foram ao chão:
_ Como percebe, não tenho espada e nem sou forte. Preciso de ajuda…
_ E terás tudo que deseja e um pouco mais também… Mas antes terá que enfrentar-me. É esse o seu destino!
_ De forma alguma farei isso. E sei que não é esse o meu destino.
_ O que sabes tu de teu destino? Teu destino é enfrentar numa luta justa e derrotar-me. Então será teu o meu lugar e quando chegar o momento, deverá caminhar por essas terras em procura da jovem que irá seduzí-lo com tamanha beleza. Ela fará seu coração disparar incontáveis vezes. Ande, empunhe sua espada. Não podemos demorar…
_ Eu já disse que não tenho espada meu senhor…
Peter sentiu-se estranho, sentiu o chão tremer abaixo de seus pés, uma forte luz surgindo de todas as direções o deixou cego e quando se deu por si, estava com uma linda espada em mãos. Ela era feita do mais precioso metal de Antares e reluzia de forma impressionante. Mas a espada também era pesada e ele quase a deixou cair…
Não houve tempo para mais nada, o velho Deus veio em sua direção, com sua espada em mãos e tudo que Peter fez, foi apontar a espada na direção dele. A falta de ação por parte do Deus Ancião o fez ir de encontro a ponta da espada que varou seu frágil corpo para desespero de Peter que não sabia o que fazer.
Tudo a sua volta estava insuportavelmente silencioso, como se a Natureza a sua volta estivesse espantada com aquela atitude tão horrenda:
_ Meu Senhor, me perdoe… Não nos deixe, eu imploro… Meu Senhor, não nos abandone… És tu nossa única esperança…
Foi então que Peter sentiu seu corpo arder como se estivesse sendo queimado vivo. A dor era insuportável e ele foi ao chão, inconsciente…



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